Confiteor

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1955 – um ano memorável não só pela excelente safra de Brunello de Montalcino, mas porque naquele ano passei por duas experiências fundamentais em minha vida.

Minha família tem ou tinha uma predominância de católicos: minha avó materna pertencia à Congregação do Sagrado Coração de Jesus e era a zeladora da igreja; minha mãe era Filha de Maria quando jovem e depois pertenceu ao Apostolado da Oração; minhas tias Dadá, Nenê e Dora também foram Filhas de Maria na juventude e eram do Apostolado da Oração; minha avó paterna era italiana e católica (como se precisasse dizer), assim como todas as irmãs de meu pai, particularmente Tia Rosa que era Filha de Maria, soprano no coro da igreja e professora de catecismo.

Meu Tio Chico e meu pai foram congregados marianos até o Vaticano II, meu tio Pedro e meu tio Nego tinham origem judaica (não seguiam a religião e não sabiam por que, mas também não eram católicos) e, finalmente, meu tio-avô Afonso e seus filhos e netos eram bodes de quatro costados. Exceto por um dos netos, Monsenhor Picido, ovelha-negra da família que não se contentando em se ordenar padre, ainda fundou uma ordem que é prelazia pessoal do Benedito…

Meu bisavô materno também era bode, secretário de loja, mas como só teve uma filha e esta filha teve quatro filhas, houve uma interrupção que somente viria a ser retomada por mim e por meu falecido primo Angelo.

Naquele distante ano, aos sete anos de idade, fui apresentado à humilhação, ao ódio e também ao êxtase…

Parece um exagêro, considerando a pouca idade que tinha à época, mas guardadas as devidas proporções, duas experiências determinaram minha vida em idade adulta.

É curiosa a maneira como as emoções imprimem os eventos em nossa lembrança. A lembrança mais antiga que tenho foi quando rachei a cabeça ao cair de um muro. Eu vi a goiaba e calculei mal. Ao me inclinar para colhê-la, caí de cabeça no chão na quina de um tijolo. No momento do fato, nem me importei e ao voltar para casa, encontrei uma vizinha, Sueli, que começou a gritar quando viu minha cabeça ensanguentada. O resultado foi uma cabeça raspada, uma dezena de pontos, uma lembrança e a incômoda sensação, hoje, de que aquela queda teve consequencias físicas para meu cérebro.

Mas, esta é outra história. Em 1955, eu me preparava para a primeira comunhão. Minha professora de catecismo eram a Clélia e minha tia Rosa. A habitual baboseira de Adão e Eva, pecado original, jesus maria josé, o pacote todo.

Naqueles tempos sombrios, era obrigatório se confessar antes da comunhão e por mais absurdo que seja, até mesmo os pirralhos da primeira comunhão precisavam passar pelo confessionário.

Dessa forma, a turma daquele ano foi reunida na igreja para o ato. No confessionário o Padre Pedro Jarussi. Padres já não prestam por natureza. Este padre em particular era um indigente intelectual e moral. Não admira que ao final tenha abandonado o sacerdócio e se amasiado com uma paroquiana que trabalhava como sua governanta na casa paroquial.

Bem, eu ajoelhei-me ao confessionário, sem entender o que devia fazer e, com isso, a confissão não saia.

O canalha do padre Pedro saiu do confessionário possesso e expulsou-me aos berros de “Vá fazer o exame de consciência!…”

Isso, diante de todos os presentes, humilhando-me e despertando em mim o ódio por ele e por tudo o que ele representava. Minha tia orientou-me quanto às respostas que devia dar ao canalha, acabei cumprindo a obrigação e fiz minha primeira comunhão com ódio no coração.

O outro evento que me marcou para sempre foi o enterro de meu tio-avô Afonso, também ocorrido em 1955.

Hoje, eu acho que o tio Afonso era Past-GADU ou GADU-Adjunto, tamanho o número de irmãos que compareceram ao seu funeral. Dezenas de estandartes de lojas e os maçons envergando os mais diferentes aventais do Rito Escocês em todos os graus.

Naquela época, os velórios eram realizados na própria residência do defunto (ainda é assim em muitas cidades pequenas). Em seguida, o corpo era levado à igreja, encomendado com ou sem missa de corpo presente (dependia da importância do finado ou de quanto ele tinha contribuído em dinheiro) e daí descia a ladeira até o cemitério.

Meu tio Afonso, no leito de morte, deixou bem claro que não queria a presença de padres ou que o corpo fosse levado à igreja e, assim, o féretro saiu diretamente de sua casa para o cemitério. Um cortejo enorme, colorido pelos aventais dos maçons e pelos estandartes das lojas. Decidi extático que também seria maçom. Foi uma epifania!

Depois disso, apesar de minhas intenções subversivas, continuei frequentando a igreja e suas típicas manifestações de superstição. Gostava particularmente das missas cantadas da semana santa, era apóstolo na pantomima da paixão todos os anos, graças à influência de minha avó; conseguia assistir às missas lá no coro da igreja, graças à Tia Rosa; ia às procissões de madrugada, marchando junto com os congregados marianos entoando “Queremos deus, homens ingratos…” e até mesmo fui crismado (há evidência fotográfica, não posso negar…). Não consegui descobrir a data exata, mas eu deveria estar com uns doze anos nesta época e entrara no ginásio.

Na segunda série ginasial, ou seja, com uns treze anos, estava assistindo à missa em companhia de um colega, o Silvinho, e no momento da consagração fiz uma observação do tipo “agora vão levantar a saia do padre…” que provocou em ambos um ataque de riso incontrolável.

Não deu outra. Lá veio o Roque Ielo (a.k.a. Rock Yellow), um farmacêutico carola que se considerava dono da Igreja e, pela segunda vez na vida, fui expulso do templo…

Foi a gota d’água. Eu era excelente aluno de inglês, capaz de escrever alguma coisa. Não tive dúvida. Escrevi uma carta ao papa de plantão, no caso o Angelo Roncalli, a.k.a. Joãozinho Quase, pedindo meu desligamento e excomunhão da santa madre. Jamais recebi resposta. Uns incompetentes.

Mas, recentemente, o finado Irmão Paulo de Tarso Liberalesso que me alcunhou Apóstata, esclareceu que eu deveria ter encaminhado o pedido via Núncio Apostólico. Valeu a intenção.

Toquei minha vida com todos os altos e baixos, tornei um adversário ferrenho e ativo da santa madre, liderando movimentos de resistência e oposição aos padres cada vez mais idiotas que ocuparam a paróquia.

E, filosoficamente, derivei para a esquerda mantendo uma posição panteista com relação ao departamento religião.

Os anos passaram e tendo estabilizado minha vida profissional e pessoal, decidi que tinha chegado a hora de reivindicar o que sentia ser meu direito, como descendente do velho Mestre Marciano.

Assim, através de meus primos bodes, fui recomendado a uma loja da Glesp em São Paulo, onde residia.

Minha senda começou no Cemitério São Paulo. Eu e meu compadre Chico fomos arrebatados, vendados, jogados no porta-malas de um veículo (parecia uma captura de subversivos pela repressão…) e saimos rodando pela cidade. Perdi totalmente a noção de tempo e espaço e depois do que pareceu uma eternidade, vi a luz… e consegui, finalmente, realizar minha excomunhão da santa madre, por força da bula do Clemente XII.

Corria o ano de 1980. Em 81 era companheiro. Em 82 era mestre e em 84 era Orador. Em 85, Venerável.

Mas, eu estivera lendo sobre maçonaria desde os 13 anos, na biblioteca municipal, nas bibliotecas de meus primos, onde pudesse, e a maçonaria que eu criara na minha mente era a maçonaria gloriosa de Gonçalves Ledo, dos Andradas, Simon Bolivar, Jose Marti, da Revolução Americana, Thomas Jefferson, Giuseppe Garibaldi e tantos outros.

E a maçonaria que se me apresentava era um arremedo daquela poderosa e influente instituição que eu fantasiara. E eu não me conformava. Estava convencido de que meus primos tinham me recomendado para alguma coisa que era uma espécie de escola de maçonaria e que só depois disso eu entraria na verdadeira Maçonaria.

Aproveitando um convite oportuno em 1986, transferi-me para outra loja, enorme, funcionando na sede da Glesp, à qual pertencia o próprio Grão Mestre. A coisa melhorou, a política corria solta, ainda que somente internamente, e eu ainda não conseguia ver a ação efetiva da Ordem sobre a sociedade. Aproximei-me do Grão Mestre e, imprudentemente, sugeri uma ação mais ampla. O Grão-Mestre responde: “Não adianta, meu irmão, porque maçom é assim: você dá a mão, ele quer o braço”.

Meu queixo caiu. A mais alta autoridade da obediência ter esta opinião de seus irmãos!

Eu havia publicado na revista da Glesp – A Verdade – (curioso é que este era também o nome do jornal do partido comunista soviético – Pravda) uma idéia que me ocorrera e que visava dinamizar a ação da Maçonaria na sociedade: http://www.metaportal.com.br/P81N/origem.pdf

O Grão-Mestre, com sua sabedoria e sensibilidade imensas, baixou um decreto ordenando à Grande Secretaria que em hipótese alguma eu poderia me aproximar do cadastro da Grande Loja. Acho que ele receava que eu utilizasse o cadastro para o projeto, fizesse política e enfraquecesse suas bases de poder.

Enfiei minha viola no saco e deixei a GLESP, com planos de retornar quando ela fosse dirigida por mentes mais esclarecidas, o que não ocorreu nos anos seguintes.

Afastei-me da vida maçônica por alguns anos até que fui convidado a retornar, dessa vez no GOB, em uma loja do rito escocês.

Com o passar dos anos e com os estudos que a própria maçonaria havia induzido, minhas convicções no departamento religião também haviam evoluído, e a religiosidade do rito escocês passou a incomodar-me.

A Maçonaria exige a crença em um Princípio Criador, ou seja, uma categoria filosófica abrangente que consegue abrigar os mais diferentes conceitos, inclusive a teoria do evolucionismo e da seleção natural.

A maior parte dos maçons, contudo, devido às suas origens cristãs e deistas, restringe este amplo conceito da maçonaria, entendendo que o Princípio Criador da maçonaria equivale ao mesmo conceito do deus de abraão. Entre os maçons que fazem isso, estão os Escocistas.

Mas, diferentemente da GLESP, o GOB tem uma visão mais ampla e oferece um menu de ritos mais diversificado, que atende às diferentes personalidades e demandas, sem desfigurar o conceito do Princípio Criador. E entre os ritos encontra-se o Rito Moderno, onde a questão religiosa não é colocada, vez que é de foro íntimo.

No entanto, mesmo tendo encontrado um nicho satisfatório do ponto de vista pessoal, sinto que as lojas localizadas nos grandes centros, independentemente do rito que adotem, não atuam e sequer têm a possibilidade de atuar da forma como a maçonaria gloriosa atuava.

Nos pequenos centros a Ordem ainda consegue influenciar os destinos da sociedade cooptando os líderes, ao mesmo tempo em que preserva a instituição através da preservação do ritual e estrutura das lojas.

As lojas dos grandes centros, por outro lado, são heterogêneas demais, abrigam irmãos originários de diferentes geografias dentro das metrópoles, e com isso não conseguem galvanizar o interesse dos membros da loja em torno de ações objetivas. O lamentável resultado é que a loja se volta para dentro e se limita, com raras exceções, apenas a seguir o ritual pelo ritual.

Um dos objetivos ambiciosos do Projeto 81 Nós, (www.metaportal.com.br/P81N ) que finalmente consegui implementar graças à Internet, é que os seus membros, ao descobrir a existência de outros irmãos próximos à sua residência, os procurem e proponham ações conjuntas em benefício da coletividade na qual estão inseridos.

Sonho? Pode ser. Mas é o que me motiva no momento.

Gosto da imagem do eterno retorno, mas com o viés de espiral ascendente.

Em vejo minha vida maçônica como uma espiral. Entrei em uma loja cujo nível cultural e espiritual deixava a desejar, prossegui em outra loja que estava um andar acima, mas que ainda não representava o ideal de loja que eu tinha; a passagem para o GOB também representou, a meu ver, um progresso e dentro do GOB, a ida para o rito moderno foi mais uma volta da espiral ascendente. Agora, provavelmente vou filiar-me à Loja Fernando Pessoa que dentro do rito moderno adota um formato de sessão que nos remete às origens da Grande maçonaria: a discussão de questões importantes ligadas à sociedade e aos problemas do mundo.

Talvez seja a última volta da espiral.  Só espero que ao final dessa volta não seja a porta de saída.

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