Máquina do Tempo

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Hoje, na sobremesa, viajei no tempo…

Minha vizinha trouxe de seu sítio um saco de mangas. Manga comum, manga rosa, manga espada… fresquinhas, colhidas no pé, ainda sangrando.

Quando coloquei na boca e mordi a manga, fui engolido pelo vórtice do tempo e emergi no alto da mangueira no quintal da casa da Vó Chica, na última forquilha, empoleirado como um macaco, com a cara toda lambuzada.

O quintal da casa da Vó Chica era mágico, assim como o porão da casa onde durante muitos anos viveu a Militana, ou Tana como a chamávamos, a primeira filha de escravos nascida em Caconde depois da Lei do Ventre livre. Apesar de ter a possibilidade de ocupar um aposento da casa, ela preferia morar naquele porão escuro e insalubre, em um catre. Nunca entendi por que. Acho que ela se convencera de que sendo negra, devia dormir na senzala. Diariamente, lá vinha ela encarquilhada e curvada sobre sua bengalinha, saindo do porão buscar o café da manhã e voltava para seu porão escuro. De vez em quando ela nos pedia que fôssemos comprar querosene para sua lâmpada. A Militana está enterrada no mausoléu da família, já que sempre fez parte dela. Curioso é que minha mãe, na velhice ficou parecida com ela de rosto. Só que em negativo.

Acho que o quintal da casa da vó chica media quilômetros quadrados. Nele cabiam aventuras infindáveis, havia galhos e galhos de árvore onde podíamos amarrar cordas e improvisar balanços e “cipós” de tarzã. Além disso, no fundo do terreno existia – ainda existe – o Buracão, uma área que presumo seja pública, já que ninguém se apossou dela nestes últimos cinquenta anos.

Ali, nas encostas realizávamos nossas proezas de esquiadores e exploradores. Desciamos por ele que ficava no fundo dos quintais de todas as casas da rua, até emergirmos duas quadras abaixo, o que nos parecia uma distância enorme.

Ao lado da cozinha da casa de minha vó havia uma parreira de uva niagara. Junto a ela havia o tanque, ao lado do qual crescia um mamoeiro que me permitia subir na muralha da cadeia que ficava vizinha à casa. Dali ficava espiando os presos, habituais cachaceiros que eram recolhidos e que ali passavam a noite curtindo o porre. Às vezes passavam por um “tratamento” que consistia em um banho frio em um tanque existente no pátio. Ocasionalmente, os soldados da guarnição me ajudavam a descer da muralha para dentro do pátio e eu ficava por ali perambulando.

Os presos com penas mais longas eram alojados nas celas do edifício principal, sendo que uma delas ficava bem diante da porta de saída, com vista para a praça Sampaio Vidal. Passavam o tempo todo fabricando aquelas cobras articuladas, usando um cabo de vassoura e barbante. Fabricavam também aquele brinquedo do ginasta em forma de H, (vou fazer um depois, e ponho a foto aqui) em que a gente apertava as hastes e o ginasta se movia.

Do tanque corria superficialmente um “rego” de água que foi o cenário de batalhas épicas, onde nossos barcos tripulados por formigas desciam pela corrente até chegarem ao remanso dos copos de leite lá perto da primeira mangueira.

Havia duas grandes mangueiras, além da parreira, da uvaieira de onde cai e me arrebentei todo aos dezesseis anos, desfigurando meu lindo rostinho e também minha personalidade (mas isso é pano para outra manga), pitangueiras, um pé de araçá, um abacateiro e bananeira, também cenário de muitas aventuras e também de muita bronca devido às manchas nas roupas provocadas pela nódoa da bananeira.

Entre as duas mangueiras havia um buraco que resultara de alguma obra realizada na casa e que apresentava um barranco na direção das raízes da mangueira de cima. Certa vez, decidimos cavar um túnel para fazer uma “caverninha” e lá fomos nós. Secretamente. Cobríamos a boca do túnel quando saíamos. Quando o Tio Chico descobriu, nosso túnel dá estava chegando às raízes da mangueira, uns bons dois metros e havíamos criado um iglu para acomodar mais de um moleque.

Hoje eu fico imaginando o que teria acontecido se não existissem as raízes da mangueira que de alguma forma impediam o desmoronamento. Meu tio ficou possesso, jogou um cachorro morto dentro do túnel e tapou-o. Não me lembro se apanhamos ou não. Provavelmente sim.

Éramos completamente dementes.

A casa tinha um porão alto, cheio de morcegos, onde vivia a Militana. Ela morreu logo, e ficamos com o porão todinho para nossas aventuras. Havia muita mobília, baús cheios de coisas antigas que nós destruímos como vândalos enfurecidos.

Encontramos cunhetes de munição remanescentes da revolução constitucionalista (as tropas paulistas usaram a casa em 32, de onde tinham uma vista privilegiada das posições da trincheira dos mineiros, logo acima do campo do União. Até hoje a trincheira é visível, embora poucas pessoas saibam disso e não exista de parte da prefeitura interesse algum em recuperar a memória da cidade. Certa vez estivemos na trincheira onde encontramos montes de cartuchos (provavelmente se escavarmos ali, ainda encontraremos alguns.

Doidinhos que éramos, abríamos os cartuchos de fuzil e recolhíamos a pólvora (eram pellets de cordite em formato de confetes quadradinhos) que queimávamos em fogueiras. Por sorte não tivemos a idéia de ver o que aconteceria de queimássemos um cartucho…

De volta ao século XXI…

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