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La Recherche du temps perdu ou para os íntimos, a Horta da Luzia

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Os “veios” devem se lembrar do Pasquim. Era um tabloide publicado na década de 70 e 80 que se opunha ao regime militar e que reunia os intelectuais de esquerda, incluindo jornalistas e humoristas, o que dava um tom sui generis ao jornal. Foi o avô do CQC.

Foi lá que vi a expressão “horta da luzia”. Isso tem relação com uma expressão “você vai ganhar o que a Luzia ganhou atrás da horta”, mas no Pasquim significava uma espécie de exercício proustiano.

Pois é. Durante aquele período de minha existência que chamo de “verdadeira vida”, de 1968 a 1971, meu irmão, Nicola, alugou um apartamento na Rua da Consolação onde eu também acampava. Sim. Acampava porque era um acampamento, não um apartamento. Para se ter uma ideia, meu guarda-roupa era uma cama colocada em 45 graus contra a parede, com os cabides dependurados embaixo dela, no estrado, e cobertores, etc. sobre a parte inclinada. E eu dormia sobre um colchão no chão. Mas, era um lar…

Certa noite, eu e o Nicola, cada um em sua cama, no escuro, começamos a conversar sobre reminiscências da infância e da juventude e o assunto derivou para lembranças de quem morava onde.

Aí começamos pelo Seu Oracildes, à esquerda de nossa casa na Rua Marechal Deodoro, 99. Fisicamente à esquerda, porque o Seu Oracildes era de extrema direita. Em seguida vinha a Dona Coleta Mendes que morava em um apartamento anexo à casa do Donga, casado com a filha dela, Julieta e pais da Sueli.

Na direção norte ficava o seu Cefalini, mais tarde o Alírio e o Claudio Coutinho; depois vinha o açougue do seu Leôncio, pai do Oracildes, e a casa-cartório dele, que era tabelião; daí vinha o salão de cabeleleireira da Tia Nenê, irmã de minha mãe, anexo à casa-sapataria do Pedro Guerci, pais do Angelo e da Graça. Virando à esquerda, descendo a Dr. Pedro de Toledo ficava a casa do Armando Berozzi, com sua horta imaculada. Quando plantava pimentão, diziam que ele podava cada pé com alicate de cutícula. Um brinco. Mais abaixo a casa da Tia Nair, prima de minha mãe, mulher do Tio Otinho. O nome dele Otto Mathes. Meu ídolo. Montou o primeiro radio galena da cidade, sabia tudo sobre eletrônica e era completamente ateu. Abaixo da casa deles estava a casa do Fernando Castro, filho da minha professora do terceiro ano, D. Laura. O Fernando e o Tuca, filho da Tia Nair, um dia fugiram de casa. Lembro-me do fuzuê. Virando a esquina, na Rua Tupinambas, vinha a casa do Pedro Alemão, depois uma casa que não me recordo o nome e em seguida o Quinha Lemes, eletricista. Subindo a Francisco Maia havia a casa do Zé Policici, mais uma que não me lembro e fechava de novo na casa do Donga.

E assim íamos, intercalando lembranças sobre as pessoas, à medida que os nomes surgiam, e montávamos, quadra por quadra os residentes no centro velho da cidade, a partir de nossa casa.

Foi uma noite memorável.

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EVACUANDO

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Todas as pessoas que conheço estão procurando um sentido para a vida. Entre elas, acho que ninguém conseguiu. Exceto eu, naturalmente.  E vou compartilhar com vocês a minha descoberta. 

Tarammm!

Pois bem, o sentido da vida é procurar o sentido da vida. Simples assim.

Há pessoas que não se conformam com a falta de sentido da vida e definem um sentido pessoal para a própria vida.

Há pessoas que desistem de procurar o sentido da vida e simplesmente vivem a vida, ou melhor são levadas pelo rio da vida como uma rolha flutuando na corrente.  Para alguns a corrente é turbulenta, para outros é mais suave. Eu estou entre esses últimos.

Em meus quase 65 anos de vida, tomei apenas quatro decisões marcantes. O restante dos meus dias foram uma sequência de eventos sobre os quais eu não tive qualquer controle.

A primeira delas, aos quinze anos, quando resolvi abandonar a igreja católica, com a qual tinha estado em conflito desde sempre, ou melhor, desde que o padre me expulsou aos gritos do confessionários em minha primeira comunhão (já contei essa história por aqui). Identifiquei o padre estúpido com a sua religião estúpida e nunca realmente me liguei naquela baboseira toda que a tia Rosa passava no catecismo ou os padres em seus sermões idiotas. Assim que a decisão estava madura, escrevi uma carta ao João XXIII solicitando minha excomunhão.

A segunda decisão eu tomei aos 19 anos, quando decidi jogar para cima o emprego no banco.  Tinha entrado na faculdade, dava aulas particulares, dava aulas em cursinho e tocava a vida. Foram os únicos 18 meses de vida de verdade que tive em todos os 65 anos em que venho respirando, comendo, cagando e dormindo.

A terceira decisão foi um enorme engano que cometi e que teria mudado completamente o rumo de minha vida.  Em 1970, fui informado que a IBM estava recrutando funcionários com inglês e fui até lá. Nessa época, a IBM não passava de uma salinha na Rua Araujo e eu conversei com o gerente e fui aceito, ficando de dar uma resposta no dia seguinte.  E o idiota aqui não aceitou. Só porque o horário de trabalho era da meia noite às sete.  Cretino!

A quarta decisão (e última) foi quando resolvi entrar na Maçonaria. Vocês dirão: “Ah, mas ninguém decide entrar na Maçonaria. Você tem que ser convidado.”

Pois é. É assim mesmo. Mas eu sou bisneto de maçom e duas gerações de filhas mulheres impediram a sequência da tradição. Mas, eu tinha o Tio Afonso, irmão do meu avô, que era maçom, seus filhos, netos, sobrinhos, genros eram maçons.  Pedi a ajuda deles para me apadrinhar e finalmente fui recomendado a um irmão em Sampa que me apadrinhou. Essa decisão é neutra, pois não fez diferença na minha vida, já que a maçonaria brasileira está completamente inerte.

Posso dizer, entretanto, que sou feliz.  Nasci em uma excelente família cujo único defeito era o catolicismo, mas isso eu resolvi com a minha primeira decisão.

Meu pai era uma pessoa muito simples, para quem os filhos deveriam seguir a profissão do pai e acomodar-se passivamente diante da autoridade e da vida. Era uma pessoa absolutamente honesta e cumpridora de seus deveres e conseguiu transmitir esses valores aos filhos.  Mas, ele queria mesmo que ficássemos para sempre em Caconde, tocando a barbearia.

Minha mãe, por outro lado, era uma pessoa visionária (não consigo entender de onde ela tirou a sua determinação, lutando contra a corrente). Acho que foi graças a ela que escapei de ir para em um seminário como o meu primo Picido. Seriamos dois bispos na família. Ou pelo menos um, já que o Picido não aceitou o empreguinho quando o papa ofereceu e preferiu continuar chefiando a seita que ele criou.

Bem, já evacuei bastante por hora.  Voltarei ao assunto.

E o verbo se fez carne…

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Tudo começou em uma manhã de dezembro de 1948.  Em pleno baby-boom. As cegonhas estavam trabalhando dobrado para dar conta de todos os pedidos e na noite de 18 de dezembro, o cegonho encarregado da entrega da encomenda de um filho na casa de um holandês calvinista em Poços de Caldas estava enterrado em dívidas de jogo e precisava fazer horas extras. Por isso ele estava exausto quando pegou a ordem. Não deu outra.  Quando sobrevoava Caconde, na manhã do dia 19, sua asa esquerda começou a falhar e ele resolveu entregar a encomenda ali mesmo.  Notificou o despacho e solicitou que outra cegonha entregasse outro pacote ao holandês, enquanto ele entregaria o pacote dele ali mesmo, já que não conseguiria voar até Poços.

Por isso, ao invés de uma casa calvinista, fui descarregado em uma casa católica.  Uma parte de origem portuguesa (cafeicultores falidos) e a outra metade imigrantes italianos. Uma boa família, mas com um defeito terrível – o catolicismo.

Pois é, e eram católicos. Minha vó Chica até era zeladora da igreja, fazia parte da congregação do sagrado coração de chessuis, recebia a capelinha uma vez por mês, ornamentava a fachada em dia de “picissão”; minha mãe e minhas tias foram filhas de maria e depois também eram membros da congregação do sagrado coração de chessuis; também recebiam a capelinha de vez em quando; na minha infância, era comum na casa da minha vó as brincadeiras de procissão organizadas pelo Picido – já prenunciava sua vocação.  Nas semanas santas éramos vestidos de apóstolos para o tradicional lava-pés. Como a minha Vó Chica era influente, eu sempre conseguia ser apóstolo. Hoje sou apóstata.

Do outro lado, dos italianos – católicos por definição – meu pai e meu tio eram congregados marianos, minha tia Rosa era filha de maria, catequista e cantava no coro da igreja. Minha vó Elizabeta também pertencia à congregação do sagrado coração, assim como todas as suas filhas.

Não deu outra. Fui batizado e crismado na superstição católica, onde permaneci até mais ou menos quinze anos, quando rebelei-me, escrevi uma carta ao João XXIII, pedi demissão e abandonei a santa madre.  Mas esta é uma outra história.

Epifanias

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Outro dia, eu estava vendo TV, assistindo o canal francês, como sempre faço à noite. Ao mesmo tempo, a Edna estava preparando uns sanduíches e eu estava ajudando e de ouvido atento à TV.

E eu ouvia uma mulher dizendo “evacuar isso”, “evacuar aquilo”. Daí fui ver o que tanto se evacuava e o noticiário era sobre um desastre de trem e a mulher, uma psicóloga dizia que é preciso falar sobre os traumas para “evacuar”.  Era no sentido de colocar para fora os traumas e os problemas.

Gostei.  Agora vou evacuar muito.

Para começar, fui ver um analista. O Alberto.  Recomendado por minha acupunturista Helena. Muito competente e simpático, ele deixou-me à vontade para decidir se queria realmente fazer análise. Fizemos duas sessões apenas de conversa fiada, acho que para ele ver se o caso não era cabeludo demais, ou para ver se tinha interesse como pesquisa. Sei lá.

O que sei é que eu me senti ridículo falando sobre meus probleminhas triviais, quando há pessoas com problemas terríveis. Não escondi nada, pintei um quadro geral das minhas preocupações, sentimentos, lembranças marcantes e chocantes, enfim, pintei um retrato de Mr. Hyde.

Minha motivação, na realidade é preventiva. Todo mundo carrega traumas, complexos, frustrações ao longo da vida. Meu receio é que com a idade, essa carga oculta venha à superfície e comece a criar problemas.

Bem, conversamos sobre muitos assuntos, principalmente literatura, já que ele até cometeu um livro que será publicado ou foi publicado em Agosto.

No final, desisti.  Mandei a ele o Ulysses do James Joyce (Tradução da Bernardina) e o primeiro volume do Finnegans Wake do Donaldo Schuler, já que ele não cobrou pelas sessões.

Cheguei à conclusão que tenho “issues”, é verdade, mas me parecem ridículos quando colocados em palavras e que meus receios são infundados.

Assim, vou evacuar aqui no blog. É bem mais barato, apesar de oferecer algumas limitações, considerando que a possibilidade de ser lido por amigos envolvidos ou pela família certamente levará à inibição de certos aspectos.

Mas, isso também é fácil de resolver. Descobri o Duvamis.com, onde você pode escrever o que quiser anonimamente. Dessa forma, se for um problema bem cabeludo, eu escrevo sobre ele ali, sob pseudônimo e pronto. Resolvido.

Romance barato…

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Desde sábado, estou péssimo. Não sei se a física explica, mas se eu entrar em uma sala onde o clima está pesado, eu saio de quatro e fico pelo menos um dia fora de combate até me recuperar. Em suma, sou uma vitima constante de olho gordo. Acho até que em 2007 a carga negativa foi tão grande que provocou o meu problema de estômago.

Lembro-me como se fosse hoje. Foi marcada uma conferência sobre um assunto desinteressante – 9 de julho. E foi solicitado ao grupo que trouxessem convidados. By the way, eu sou contra esse tipo de evento, pois os convidados são coagidos a comparecer, muitas vezes por pressão emocional ou, como era o caso, funcionários que não podiam dizer não ao patrão, familiares visivelmente contrariados e amigos enfadados.

Em suma, um desastre. E a sala se enchia de uma carga negativa palpável.

E para onde foi toda aquela energia negativa? Para o marmitão aqui.

Não deu outra. Em seguida, durante o jantar que se seguiu, meu estômago se contraiu pela primeira vez, quase me sufocando e desde então nunca mais foi o mesmo.  Atualmente, graças à acupuntura, a energia começa a ser reequilibrada e o problema parece diminuir.

Pois acho que foi isso que me aconteceu agora. Neste sábado participei de uma reunião onde havia um alto nível de TPE – Tensão Pré Eleitoral com suas consequências normais – olhares fulminantes, diálogos ferinos, já que as regras da reunião não permitem agressões verbais ou discussões exacerbadas.

O resultado foi que entrei em parafuso, com a cabeça arrebentando, o potenciômetro de energia no zero, enxaqueca e o pior: uma sensação de ter sido substituído por outra pessoa.

E essa nova pessoa sabe tudo sobre mim, foi brifada com detalhes, o que faz com que as lembranças sejam exatas, embora não provoquem a recriação da emoção envolvida no momento lembrado.  Como se fosse um filme ou uma descrição literária.

Às vezes eu acho que sou uma personagem de um romance ruim  – uma novela chata, longa e maçante. Uma espécie de Gregor Samsa dos trópicos em um romance escrito por um paulo coelho da vida…

E esse idiota que escreve o romance, incompetente, faz alterações na personagem para ver se ela se desenvolve. Sem muito sucesso, pois se trata de uma personagem plana, mal estruturada, vitima de síndrome de personalidade esquizoide e mal resolvida. A personagem foi colocada inúmeras vezes  pelo autor diante de oportunidades de fruição de emoções e desenvolvimento de “plots” alternativos, mas o autor não soube encaminhar os eventos de forma eficiente, já que sua personagem não fora corretamente estruturada.

Confesso que não entendo a sua motivação para escrever esse péssimo romance. Minha esperança, talvez, seja que se trate de um longo flashback da biografia de um grande homem, ou seja, algo de grandioso está reservado para a personagem e que justifica a perda de tempo.

Balanço anual ? Coisa de velho…

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Todo fim de ano é a mesma coisa. Começam os balanços de acontecimentos do ano como se fossemos todos contadores e nossas vidas reduzíveis a números.  Acho que os velhos começam a fazer isso, porque começam a ver chegar a hora da auditoria final.

Bem, para não fugir à regra, resolvi fazer o meu balanço e este foi o relatório dos auditores.

RELATÓRIO

A empresa atual é um “spin-off” de Souza & Filardo Cia. Ltda. constituída na década de 40 em Caconde – SP com um capital bastante limitado e transferida na década de 60 para São Paulo onde adquiriu uma sede. Esta empresa cresceu modestamente do ponto de vista de ativos permanentes, e privilegiou o investimento em tecnologia, conseguindo com isso uma produção de boa qualidade, atualizada, incorporando o estado da arte ao seu produto.

A empresa Querci & Filardo, objeto desse relatório, começou em 1973. Também começou com um capital bastante limitado, visto que os acionistas não haviam recebido ativos significativos de suas matrizes, além da incorporação de tecnologia ocorrida na produção daquelas empresas, o que representou um diferencial bastante importante no desenvolvimento do novo empreendimento.

Logo após a sua constituição, a nova empresa instalou-se em imóvel alugado no bairro de Perdizes, até que, aproveitando condições de mercado favoráveis captou recursos financeiros e adquiriu uma sede modesta no bairro de Pinheiros, financiada em longo prazo.  Um dos sócios entrara na sociedade com um veículo que servia para o desenvolvimento das atividades empresariais. Durante algum tempo, a empresa dedicou-se apenas à acumulação de capital e manutenção de veículos até que foram criadas as condições para iniciar a produção, o que ocorreu na década de 80.

Contando com sócios fieis à empresa – nenhum deles investia no mercado – o capital foi gradativamente crescendo, investimentos foram feitos principalmente no aperfeiçoamento dos produtos, na amortização do empréstimo para aquisição da sede, troca periódica da frota de veículos, alguns pequenos investimentos de longo prazo, e em uma sede secundaria no interior utilizada para lazer.

Amortizado o empréstimo para a aquisição da sede e existindo a necessidade de ampliação das instalações da empresa, uma nova sede foi adquirida mediante a venda da sede antiga, somado ao capital acumulado durante os anos e à venda da sede secundária.  A nova sede era bem mais ampla e permitia inclusive acomodar a empresa, incluindo o estoque da produção de maneira mais adequada. Estava um pouco desgastada e exigindo reforma, mas finalmente ficou adequada, embora que não fosse ideal.

Na virada do século, a empresa Souza & Filardo Cia Ltda, entrou em recesso, com a aposentadoria dos sócios, e transferiu  seus ativos às suas sucessoras, o que permitiu à Querci & Filardo adquirir uma segunda sede para sua mais recente “spin-off” –  Filardo, Empresa Individual de Responsabilidade Limitada (E.I.R.L.) situada não muito distante da sede da Querci & Filardo Cia. Ltda.

Assim, ao final de 2012, a empresa encontra-se estabilizada, houve aumento de capital, tem um fluxo de caixa normal, um nível de ativos que lhe assegura uma posição confortável; foram feitos investimentos na sede da empresa, usando os serviços da subsidiária Filardo E.I.R.L. que resultaram em instalações confortáveis e esteticamente satisfatórias. Foram renovados equipamentos de ar condicionado e hidráulica, assim como renovada a frota de veículos.

Os sócios encontram-se no momento em boas condições de saúde, apesar do desgaste normal do uso. Alguns problemas que os afetaram nos últimos anos foram equacionados a contento.

Essa auditoria, portanto, é de opinião que a empresa é sólida, tem perspectiva positiva para os próximos anos, sendo recomendada a novos sócios que eventualmente se interessem em entrar para o grupo.

Saudades da adolescência, o C@#@$&%!!!

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Sou um telespectador masculino típico: zapeio tanto pelos canais da TV a cabo que meu controle remoto precisa ser periodicamente substituído. Assim, eu evito sistematicamente a publicidade nos longos intervalos da programação.

Mas, um dia desses fui pego desprevenido (não consegui achar o controle perdido entre as almofadas do sofá) e assisti a um comercial de automóvel (acho que da VW) onde apareciam dois executivos bem sucedidos (essa devia ser a mensagem, já que possuíam o veículo da marca) onde um deles pergunta ao outro se ele sentia saudades dos “velhos tempos”, desencadeando as lembranças do colega: duro, contando moedas, sofrendo rejeição das “minas”…

Pois é, eu também não sinto nenhuma saudade daqueles anos horrorosos e fico abismado quando vejo as pessoas falando de sua adolescência como se tivesse sido os “bons tempos”. Tá bom, a infância talvez. Mas a adolescência? @#$%&!

Eu devo ser um cara mais complicado do que o normal.

Depois de consultar o Dr. Gugol (famoso psiquiatra vienense que mantém consultório atualmente em Mountain View, Califórnia e clínicas espalhados pelo mundo inteiro incluindo São Paulo e Belzonte) conseguimos diagnosticar meus problemas mentais.

Chegamos à conclusão de que eu tenho uma forma leve de Transtorno de Personalidade Esquizóide (TPE) (CID-10) que é definido como um transtorno de personalidade primariamente caracterizado por falta de interesse em relações sociais, tendência ao isolamento e à introspecção, e frieza emocional, e simultaneamente por uma rica e elaborada atividade imaginária interior.

Até fizemos uma tomografia que revelou a consistência do meu coração: pedra

Analisamos extensamente a minha biografia e chegamos à conclusão de que também tive um retardo de desenvolvimento, visto que minha infância chegou até os dezesseis (16) anos, quando sofri uma queda da qual escapei miraculosamente, trauma este que provocou a eclosão de uma adolescência intensa e problemática. Vejamos por alto o relato dos fatos ocorridos em minha bio.

Meu primeiro grande trauma ocorreu na manhã de domingo, 19 de Dezembro de 1948, às 8:30 da manhã e o local foi a casa de minha Vó, na Pça Sampaio Vidal, 15, centro, Caconde SP, Brazil. Naquela hora eu fui arrancado de um ambiente agradável, aconchegante, relativamente silencioso, aquecido e depois de ser esmagado, apertado, espremido, cai sobre um tecido áspero, com uma tremenda corrente de ar. Só me restou protestar aos gritos…

A partir daí foram alguns anos sem registro até 1955 quando ocorreu novo trauma. Fui retirado de uma vida de liberdade total e obrigado a acordar todos os dias e passar horas em salas fechadas, cheias de crianças barulhentas onde cumpri quatro anos de tormentos. Também não consegui manter muitos registros dessa fase, a não ser uma marcante lembrança do gabinete dentário da escola onde passei momentos desagradáveis.

Essa fase de minha vida até que foi tranquila. Morávamos na Rua Marechal Deodoro, entre a casa do Seu Oracildes e a casa do Seu Cefalini. Tínhamos um quintal, porão, galinheiro, horta e jardim. Para um garoto pequeno e levado, era um paraíso. Eu brincava muito também com o Djalma, um filho excepcional da dona Orazilda, que morava com a avó dona Etelvina em um bungalow onde hoje existe o Mercado Municipal.

Vivíamos em cima dos muros que eram caminhos entre os diferentes quintais – o nosso território expandido: jabuticabas enormes no quintal da Tia Nair, mangas do Tio Pedrinho, pêssegos do Cefalini, várias frutas do quintal do Pedro Alemão, do Seu Leôncio, do Seu Oracildes, a horta imaculada do Armando Berozi (circulávamos e nos apropriávamos das frutas mesmo contra a vontade dos donos…)

Em um desses deslocamentos, vi uma convidativa goiaba pendendo do galho. Calculei mal e poff! Caí de cabeça sobre um tijolo e abri um talho enorme na cabeça. Desconfio até que desde então fiquei mais maluquinho do que já era. O tio Pelô costurou.

De repente, mudamos para a casa de minha vó Chica, provavelmente devido a algum problema financeiro que jamais nos foi revelado. Não que tenha sido ruim, porque o quintal da casa de minha vó era muito mais divertido que o nosso. Passei os anos seguintes na minha versão macaco. A maior parte do tempo estava no alto da mangueira ou, de alguma outra forma, colocando em risco a minha vida no porão do casarão, rolando pela urtiga no “buracão”, uma pirambeira que existe ate hoje e que ficava no fundo da casa de minha vó.

Em 1963, mais ou menos, minha sorte falhou e eu me precipitei do alto de uma uvaieira e só não virei pastel por puro acaso. Mas, a queda me custou a arcada dentária. Meus incisivos foram empurrados para dentro e até hoje deve ter um deles encravado no meu “célebro”. O ano seguinte foi de recuperação e a questão estética não era representativa porque havia uma história conhecida por trás de minha aparência. Eu não era simplesmente um baixinho banguela. Eu era aquele-cara-que-caiu-da-árvore-e-quase-morreu; eu era o filho-do-seu-angelim-filardo; eu era o-neto-da-dona-chica; eu era o-filho-da-dona-elza; eu era o-sobrinho-do-chico-filardi. Enfim, eu tinha um lugar na sociedade, por mais desimportante que fosse.

Então…

Minha mãe tomou uma decisão que, de certa forma, nos salvou, independente das dificuldades enfrentadas em consequência dela.  Decidiu que nos mudaríamos para São Paulo para que os filhos pudessem prosseguir nos estudos, enfim, encontrar oportunidades que jamais teríamos em uma cidade desprovida de tudo. Decidiu que devíamos nos mudar para Mogi das Cruzes, que ficava perto de Sampa e onde havia uma prima, o que era melhor que um lugar onde estivéssemos totalmente sozinhos.

Só que foi uma decisão unilateral, tomada sem preparo psicológico dos diferentes stakeholders. As consequências imediatas foram: a desestruturação do nosso mundinho social. Agora eu era apenas mais um caipira baixinho e banguela em uma cidade grande, cuja única qualidade no seu meio social – que se limitava à turma da classe no colégio – era saber mais inglês que todos os outros. Não tinha amigos, os colegas geralmente trabalhavam e estudavam; a grande maioria deles era “japonêis” com as conhecidas dificuldades de relacionamento com os “gaijins”; não tinha grana para nada;  minha diversão nos fins de semana era pegar o trem suburbano até São Paulo e bater perna – no máximo um cinema – comer “pastéis com grapette” no largo do Paissandu e voltar para Mogi.  Bem, uma vez consegui ver Arena Conta Zumbi – a experiência mais intensa e gratificante dessa época.

Meu pai entrou em depressão, eu mergulhei em uma adolescência turbulenta típica onde eu passava o dia todo vendo TV, com intensa vida sexual solitária. Eu cuidava de meu irmão mais novo, levava-o à escola e à noite ia ao colégio. Era o Instituto de Educação, escola excelente na região, com um nível extremamente mais alto de ensino.  Foi um caos conseguir acompanhar, com a base que tivera  back home. Só me salvava em inglês e português.

Enfim, acho que de todos, minha irmã foi quem se saiu melhor, pois diferente de mim, tem enorme facilidade para fazer amigos e logo tinha a sua patota. Meu irmão mais novo praticamente nem sentiu. Pelo contrário, teve a sorte de se desenvolver em um ambiente mais cosmopolita, mais bem informado.

Nós morávamos em uma casa velha, caindo aos pedaços no centro da cidade e foi um looooooooooongo, looooooongo ano, ao final do qual eu me vi reprovado em física no colégio. De certa forma foi um feito, pois foi só física.

Minha mãe, diante daquele cenário catastrófico, decidiu retornar. Uma nova etapa se iniciou, onde se fizeram sentir as consequências das experiências vividas no ano anterior.  Estávamos todos mudados.

Meu pai arrependeu-se quando seu fluxo de caixa despencou. Em Mogi, trabalhando o mesmo número de horas ele ganhava dez vezes mais. E entrou em depressão, lamentando-se o tempo todo. Queria voltar imediatamente. Minha mãe fez pé-firme dizendo que agora esperaria até que os filhos completassem os ciclos, antes de decidir.

Talvez como consequência do isolamento social de um ano, eu estava absurdamente agressivo e insuportável, ao ponto de ser necessária a intervenção do professor Edgar (a quem eu tinha em altíssima conta) para que se evitasse a minha expulsão do Colégio por indisciplina.

Neste momento crucial, uma pequena providência colocou as coisas nos eixos para mim, pelo menos: minha arcada dentária estava suficientemente solidificada e foi possível intervir. O Dudi instalou uma ponte móvel fechando o “gap” dos incisivos e restabelecendo minha autoestima. Voltei a ser um serumano normal e isso permitiu completar o colegial, namorar, e me preparar para a universidade.

Mais uma vez, sabiamente, minha mãe resolveu retornar à cidade grande. Entrou em concurso e removeu-se. E lá fomos nós de novo pra Mugim… só que dessa vez, deu tudo certo.