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Obituário de James Joyce (+ Jan. 13, 1941)

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 Tradução José Filardo

Publicado em 14 de janeiro de 1941 pelo The Guardian

Máscara fúnebre de James Joyce

Com a morte de James Joyce falece a figura estranha e mais original que a Irlanda deu à Europa nesta geração.

A proibição imposta por anos ao seu “Ulysses” deu notoriedade ao seu nome sem revelar sua verdadeira estatura e força. Que ele era um artista genuíno, sincero, integrado e profundo fica claro da simplicidade de seus primeiros contos “Dubliners” e da narrativa autobiográfica bem definida de “Retrato do Artista.”

Em “Ulysses”, ele tentou a difícil tarefa de apresentar um quadro completo da vida do indivíduo em nosso tempo, tanto consciente quanto subconsciente, o simples, pecador, tateante homem com o universo implacavelmente duro em torno dele.

Em “Finnegans Wake” ele foi mais longe, e em uma língua estranha inventiva ele pareceu romper as barreiras do tempo, embora tão complexo é o meio que sem comentários poucos podem seguir o significado.

Em sua formação estavam as antigas tradições de Dublin e da Igreja Católica Romana. Ele rompeu com ambos, até onde um homem pode jamais romper com um passado tão profundamente aterrado, e retratou o caos de um mundo desorganizado. “Ulysses” foi procurado por alguns leitores devido às suas páginas conterem palavras que eram raramente encontradas impressas. Se isso fosse a única conquista de Joyce, haveria muitos de seus compatriotas de pretensões intelectuais mais humildes que poderiam superá-lo.

Sua originalidade residia em sua descoberta de uma forma literária para expressar a complexidade inconsequente da mente humana e a semelhança fraca que as suas migrações tinham para a ordem das frases gramaticais ou as aparências de tempo e espaço.

Ele aniquilou o comum e o normal, e revelou um mundo de selva as reações mentais e emocionais que podem surgir para os homens em um único dia. Por esse caminho viajou seu gênio até onde é possível ir. Se outros não tivessem se esforçado pela tradição ou lutado por uma ilusão, pelo menos de ordem, o niilismo de Joyce teria sido impossível, pois os seus termos de referência teriam desaparecido. A Europa o apreciou e ainda assim ele estava finalmente trancado para fora da Europa, assim como da Irlanda, em algum templo secreto de sua própria mente, tão afastado da grande passagem de eventos quanto seus próprios compatriotas estão hoje.

O estrangeiro pode sentir a cidade a partir dele, mas “Ulysses” deve ser o primeiro um livro para Dublinenses, onde as graças e as desgraças de suas pequenas vidas, delimitadas pelas Colinas de Howth, o Dargle e as Estradas Circulares, têm magnitude capital.

A previsão mais assustadoramente precisa de Aldous Huxley sobre a sociedade moderna de 1949

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 Tradução José Filardo

George Orwell e Aldous Huxley

George Orwell e Aldous Huxley

Por  DNA  | 4 de janeiro de 2014  0 Comentários

lettersofnote.com – Em outubro de 1949, poucos meses após o lançamento da obra prima distópica de George Orwell 1894, ele recebeu uma carta fascinante do colega autor Aldous Huxley – um homem que, 17 anos antes tinha visto a sua própria visão de pesadelo da sociedade publicada na forma do livro Admirável Mundo Novo. O que começa como uma carta de louvor, logo torna-se uma breve comparação entre os dois romances, e uma explicação de por que Huxley acredita que seu próprio trabalho é uma previsão mais realista.

Fantástico.

Curiosidades: Em 1917, muito antes de escreveu esta carta, Aldous Huxley ensinou rapidamente francês a Orwell.

(Fonte: Cartas de Aldous Huxley; Imagem: George Orwell (via) E Aldous Huxley (via) )

Wrightwood. Cal.
 21 de outubro de 1949

Caro Sr. Orwell,

Foi muita gentileza da sua parte instruir seus editores a enviar-me uma cópia do seu livro. Ele chegou quando eu estava no meio de um trabalho que exigia muita leitura e consulta de referências, e uma vez que a visão ruim torna necessário que eu racione minhas leituras, tive que esperar um longo tempo antes de poder embarcar em Mil Novecentos e Oitenta e Quatro.

Concordando com tudo o que os críticos vêm escrevendo sobre ele, eu não preciso dizer-lhe, no entanto, mais uma vez, quão bem e quão profundamente importante é o livro. Posso falar, em vez disso, daquilo com que o livro lida – a revolução final? Os primeiros sinais de uma filosofia da revolução final – a revolução que está além da política e da economia, e que visa a subversão total de psicologia e fisiologia do indivíduo – encontram-se no Marquês de Sade, que se considerava o continuador, o consumador de Robespierre e Babeuf. A filosofia da minoria dominante em “1984” é um sadismo que foi levado à sua conclusão lógica, indo além do sexo e negação. Se, na realidade, a política do bota-na-cara pode continuar indefinidamente parece duvidoso. Minha crença é que a oligarquia dominante encontrará formas menos árduas e esbanjadoras de governar e de satisfazer seu desejo de poder, e essas formas se assemelharão às que eu descrevi em Admirável Mundo Novo. Recentemente, tive a oportunidade de olhar para a história do magnetismo animal e do hipnotismo, e fiquei muito impressionado com a maneira pela qual, por cento e cinquenta anos, o mundo vem se recusando a tomar conhecimento sério das descobertas de Mesmer, Braid, Esdaile, e do resto.

Em parte devido ao materialismo vigente. e em parte devido à respeitabilidade vigente, os filósofos e homens da ciência do século XIX não estavam dispostos a investigar os fatos mais estranhos da psicologia para os homens práticos, tais como políticos, soldados e policiais, para aplicar na área de governo. Graças à ignorância voluntária de nossos predecessores, o advento da revolução final foi adiado por cinco ou seis gerações. Outro acidente de sorte foi a incapacidade de Freud hipnotizar com sucesso e sua consequente depreciação do hipnotismo. Isso atrasou a aplicação geral do hipnotismo à psiquiatria por pelo menos quarenta anos. Mas agora a psicanálise está sendo combinada com a hipnose; e a hipnose tem sido facilitada e indefinidamente extensível através do uso de barbitúricos, que induzem um estado hipnótico e sugestionável, mesmo nos pacientes mais recalcitrantes.

Dentro da próxima geração, eu acredito que os governantes do mundo descobrirão que o nascente condicionamento e a narco-hipnose são mais eficientes como instrumentos de governo que os bastões e as prisões, e que o desejo de poder pode ser tão completamente satisfeito sugerindo às pessoas amar sua servidão quanto através de flagelação e chutes para forçar a obediência. Em outras palavras, eu sinto que o pesadelo de “1984” é destinado a modular o pesadelo de um mundo que se parece mais com o que eu imaginava em Admirável Mundo Novo. A mudança será provocada como resultado de uma necessidade sentida de aumento da eficiência. Enquanto isso, é claro, pode haver uma guerra biológica e nuclear em grande escala – caso em que teremos pesadelos de outros tipos dificilmente imagináveis.

Obrigado mais uma vez pelo livro.

Atenciosamente,

Aldous Huxley

POR QUE SOU AGNÓSTICO – Robert G. Ingersoll – 1896

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Tradução José Filardo

E Robert Ingersoll não viu Auschwitz, não viu Belsen, não viu Dachau, não viu Treblinka, não viu Lídice, não viu as faces chupadas das crianças de Biafra, do Sudão, de Rwanda, os corpos queimados de napalm no Vietnam…..

Na maior parte das vezes, herdamos nossas opiniões. Somos os herdeiros de hábitos e costumes mentais. Nossas crenças, assim como a moda de nossas vestimentas, dependem de onde nascemos. Somos moldados e modelados por nosso ambiente.

O ambiente é um escultor — um pintor.

Se tivéssemos nascido em Constantinopla, a maioria de nós diria: “Não existe outro Deus senão Alá, e Maomé é seu profeta”. Se nossos pais tivessem vivido às margens do Ganges, teríamos sido adoradores de Siva, desejando o céu do Nirvana.

Como regra geral, as crianças amam seus pais, acreditam naquilo que eles ensinam e orgulham-se de dizer que a religião de sua mãe é boa o suficiente para eles.

A maioria das pessoas ama a paz. Eles não gostam de ser diferentes de seus vizinhos. Eles gostam de companhia. Eles são sociais. Eles gostam de viajar na estrada com a multidão. Eles odeiam viajar sozinhos.

Os escoceses são calvinistas porque seus pais foram. Os irlandeses são católicos porque seus pais foram. Os ingleses são episcopalistas porque seus pais foram e os americanos estão divididos em uma centena de seitas porque seus pais foram. Esta é a regra geral, à qual existem muitas exceções. As crianças, algumas vezes, são superiores a seus pais, modificam suas idéias, alteram seus costumes e chegam a conclusões diferentes. Mas isto geralmente é tão gradual que a partida quase não é notada e aqueles que mudam, geralmente insistem em que ainda estão seguindo os pais.

Os historiadores cristãos alegam que a religião de uma nação foi mudada abruptamente, algumas vezes, e que milhões de pagãos foram convertidos ao Cristianismo pelo comando de um rei. Os filósofos não estão de acordo com estes historiadores. Os nomes mudaram, altares foram destruídos, mas as opiniões, os costumes e crenças permanecem os mesmos. Um pagão, sob a espada desembainhada de um cristão, provavelmente mudaria suas visões religiosas, e um cristão, com uma cimitarra acima de sua cabeça, subitamente poderia tornar-se muçulmano, mas efetivamente, ambos permaneceriam exatamente como eram antes — exceto ao falar.

A crença não está sujeita à vontade. O homem pensa como se estivessem. As crianças não podem e não acreditam exatamente como foram ensinadas. Elas não são exatamente iguais a seus pais. Elas diferem em temperamento, em experiência, em capacidade, em ambientes. E assim, existe uma mudança contínua, ainda que quase imperceptível. Existe um desenvolvimento, um crescimento consciente e inconsciente, e comparando longos períodos, descobrimos que o velho quase foi abandonado, quase perdido no novo. O Homem não pode permanecer estacionário. A mente não pode ser ancorada firmemente. Se não avançamos, regredimos. Se não crescemos, decaímos, Se não desenvolvemos, encolhemos e secamos.

Como a maioria de vocês, fui criado entre as pessoas que conhecia — que estavam certas. Eles não argumentavam ou investigava. Eles não tinham dúvidas. Eles sabiam que tinham a verdade. Em suas crenças, não havia lugar para a adivinhação — nenhum talvez. Eles tinham a revelação de Deus. Eles conheciam o princípio das coisas. Eles sabiam que Deus começou a criar em uma manhã de segunda-feira, há quatro mil e quatro anos antes de Cristo. Eles sabiam que na eternidade — naquela distante manhã, ele não havia feito nada. Eles sabiam que levou seis dias para criar a terra — todas as plantas, todos os animais, toda a vida e todos os globos que giram no espaço. Eles sabiam exatamente o que Ele fez a cada dia e quando descansou. Eles sabiam a origem, a causa do mal, de todo o crime, de toda doença e da morte.

Eles somente não conheciam o começo, mas conheciam o fim. Ele sabiam que a vida tem um caminho e uma via. Eles sabiam que o caminho, relvado e estreito, cheio de espinhos e urtigas, infestado de víboras, lavado de lágrimas, manchado por pés ensangüentados levava ao céu, e que a estrada larga e suave, ladeada por frutas e flores, cheia de riso e canções, e toda a felicidade do amor humano levava direto ao inferno. Eles sabiam que Deus estava fazendo o melhor para que você escolhesse o caminho e que o Diabo usava de toda artimanha para manter você na estrada.

Eles sabiam que havia um luta perpétua entre os grandes Poderes do bem e do mal pela posse das almas humanas. Eles sabiam que há muitos séculos, Deus tinha deixado seu trono e que um bebê havia nascido neste pobre mundo — e que ele tinha sofrido a morte em nome do homem — para salvar uns poucos. Eles também sabiam que o coração humano era em essência depravado, de modo que por natureza, o homem estava apaixonado pelo erro e odiava Deus com todas as suas forças.

Ao mesmo tempo, eles sabiam que Deus criou o homem à sua imagem e semelhança e que estava perfeitamente satisfeito com seu trabalho. Eles também sabiam que ele havia sido iludido pelo Demônio, que por meio de vilanias e mentiras, tinha enganado o primeiro da raça humana. Eles sabiam que em conseqüência disto, Deus amaldiçoou o homem e a mulher; o homem com o trabalho exaustivo e a mulher com a escravidão e a dor, e ambos com a morte; e que ele amaldiçoou a própria terra com rosas e espinhos, sarças e cardos. Todas essas coisas abençoadas eles sabiam. Eles também sabiam tudo o que Deus havia feito para purificar e elevar a raça. Eles sabiam tudo sobre o Dilúvio — sabiam que Deus, com exceção de oito, afogou todas as suas crianças — as maiores e as menores — o patriarca encurvado e o bebê sardento — o jovem mancebo e a feliz noiva — a mãe amorosa e a criança risonha — porque sua misericórdia dura para sempre. Eles também sabiam que ele afogou os animais e os pássaros — tudo o que caminhava, se arrastava ou voava — porque sua gentileza amorosa permeia toda a sua obra. Eles sabiam que Deus, com a finalidade de civilizar seus filhos, devorou alguns com terremotos, destruiu alguns com tempestades de fogo, matou alguns com seus raios, milhões de fome, peste e sacrificou milhares incontáveis nos campos de guerra. Eles sabiam que era preciso acreditar nestas coisas e amar a Deus. Eles sabiam que não podia haver salvação senão pela fé, e através do sangue reconciliador de Jesus Cristo.

Todos os que duvidasse ou negassem estariam perdidos. Viver uma vida moral e honesta — manter seus contratos, cuidar da esposa e dos filhos — manter um lar feliz — ser um bom cidadão, um patriota, um homem justo e ponderado, era simplesmente uma maneira respeitável de ir para o inferno.

Deus não premiava os homens por serem honestos, generosos e corajosos, mas pelos atos de fé. Sem a fé, todas as chamadas virtudes eram pecados, e o homem que praticasse estas virtudes, sem a fé, merecia o sofrimento eterno.

Todas estas coisas razoáveis e confortadoras eram ensinadas pelos pastores em seus púlpitos — por professores em escolhas dominicais e pelos pais em suas casas. As crianças eram vítimas, Elas eram assaltadas no berço — nos braços da mãe. Em seguida, o mestre-escola continuava a guerra contra seu senso comum, e todos os livros que elas liam estavam recheados das mesmas verdades impossíveis. As pobres crianças estavam indefesas. A atmosfera que respiravam estava cheia de mentiras — que misturavam-se ao seu sangue.

Naqueles dias os pastores dependiam de revitalizações para salvar almas e reformar o mundo.

No inverno, estando fechada a navegação, os negócios eram suspensos em sua maioria. Não existiam ferrovias e o único meio de comunicação eram carroças e barcos. Geralmente as estradas eram tão ruins que as carroças eram guardadas com os barcos. Não havia óperas, nem teatros, nem diversão, exceto as festas e bailes. As festas eram encaradas como mundanas e os bailes eram pecaminosos. Para uma diversão real e virtuosa, as pessoas boas dependiam de revitalizações.

Os sermões eram em sua maior parte sobre as dores e agonias do inferno, as alegrias e êxtases do céu, salvação pela fé, e a eficácia do arrependimento. As pequenas igrejas, onde o serviço era realizado, geralmente eram pequenas, mal ventiladas e excessivamente quentes. Os sermões emocionais, os cantos tristes, os améns histéricos, a esperança do céu, o medo do inferno fazia com que muitos perdessem o pouco senso que tinha. Eles tornavam-se substancialmente insanos. Nesta condição eles reuniam-se no “banco dos pecadores” — pediam as preces da fé — tinham sensações estranhas, rezavam e choravam e achavam que tinham “renascido”. Em seguida, eles contavam suas experiências — como tinham sido pecaminosos — quão maldosos tinham sido seus pensamentos, seus desejos e quão bons eles repentinamente tinham-se tornado.

Eles costumavam contar a história de uma velha que, ao contar sua experiência, dizia: — “Antes de converter-me, antes de ter dado meu coração a Deus, eu costumava mentir e roubar, mas agora, graças à graça e sangue de Jesus Cristo, eu deixei isso bastante de lado”.

Naturalmente, todas as pessoas não pensavam exatamente igual. Havia alguns zombadores e de vez em quando alguns homens tinham senso suficiente para rir das ameaças dos pastores e zombar do inferno. Contava-se sobre descrentes que tinham vivido e morrido em paz.

Quando eu era um garoto, ouvi contar sobre um velho fazendeiro em Vermont. Ele estava morrendo. O pastor estava ao seu lado — perguntou-lhe se ele era Cristão — se estava preparado para morrer. O velho respondeu que não havia feito qualquer preparação, que ele não era cristão — que ele nada havia feito senão trabalhar. O pregador disse que ele não poderia dar-lhe qualquer esperança, a menos que ele tivesse fé em Cristo, e se ele não tivesse fé, sua alma certamente estaria perdida.

O velho não se assustou. Ele estava perfeitamente calmo. Com uma voz fraca e alquebrada, disse: “Sr. Pastor, suponho que você notou minha fazenda. Minha esposa e eu viemos para cá há cinqüenta anos. Acabávamos de nos casar. Isto era uma floresta naquele tempo e a terra estava coberta de pedras. Eu cortei as árvores, queimei os troncos, recolhi as pedras e ergui as parede. Minha esposa fiou e teceu e trabalhou sem parar. Criamos e educamos nossos filhos — negando a nós mesmos. Durante todos estes anos, minha esposa jamais teve um bom vestido, um chapéu decente. Eu nunca tive uma roupa boa. Vivemos com a comida mais simples. Nossas mãos, nossos corpos estão deformados pelo trabalho duro. Nunca tivemos um dia feriado. Amamo-nos e aos nossos filhos. Este foi o único luxo que tivemos. Agora que estou para morrer, voc6e vem perguntar-me se estou preparado, Sr. Pastor, não tenho medo do futuro, nenhum terror de qualquer outro mundo. Pode ser que exista um lugar como o inferno — mas se existir, você não poderá fazer-me acreditar que é pior que a velha Vermont.”

Assim, contava-se sobre um homem que se comparava a seu cachorro. “Meu cachorro”, dizia, “só late e brinca — tem tudo o que quer para comer. Ele nunca trabalho — não tem preocupações com negócios. Logo ele morre e é tudo. Eu trabalho com todas as minhas forças. Não tenho tempo para diversão. Tenho problemas todos os dias. Logo eu morrerei e, então, irei para o inferno. Eu gostaria de ter sido um cachorro”.

Bem, enquanto durava o tempo frio, enquanto caía a neve, a revitalização continuava, mas quando o inverno acabava, quando o apito do barco era ouvido, quando começavam novamente os negócios, a maior parte dos convertidos “escorregava” e caia novamente nos antigos costumes. Mas no próximo inverno lá estavam eles prontos para “renascer”. Eles formavam um espécie de trupe, desempenhando os mesmos papéis a cada inverno e escorregando a cada primavera.

Os ministros, que pregavam nestas revitalizações eram honestos. Eles eram zelosos e sinceros. Eles não eram filósofos. Para eles ciência é o nome de uma ameaça vaga — um perigoso inimigo. Eles não sabiam muito mas acreditavam um bocado. Para eles o inferno era uma realidade incandescente — eles podiam ver a fumaça e as chamas. O Demônio não era um mito. Ele era uma pessoa de verdade, um rival de Deus, um inimigo da humanidade. Ele pensavam que o negócio importante desta vida era salvar a alma — que todos deveriam resistir e desprezar os prazeres da carne, e manter os olhos fixos nos portões dourados da Nova Jerusalém. Eles eram desequilibrados, emocionais, histéricos, preconceituosos, odientos, amorosos e insanos. Eles realmente acreditavam que a Bíblia fosse a palavra real de Deus — um livro sem erros ou contradições. Eles chamavam suas crueldades, justiça — seus absurdos, mistérios — seus milagres, fatos e as passagens idiotas eram encaradas como profundamente espirituais. Eles trabalhavam com as dores, os arrependimentos, as infinitas agonias dos perdidos e mostravam quão facilmente eles poderiam ter evitado, e quão facilmente poderiam se o céu obtido. Eles diziam a seus ouvintes que acreditassem, tivessem fé, dessem seus corações a Deus, seus pecados a Cristo que carregaria seus pecados e tornaria suas almas tão brancas como a neve.

Todos estes ministros realmente acreditavam. Eles tinham absoluta certeza. Em suas mentes, o demônio tinha tentado em vão semear as sementes da dúvida.

Eu ouvi centenas destes sermões evangélicos — ouvi centenas das mais medonhas e vívidas descrições das torturas infligidas no inferno, do horrível estado dos perdidos. Eu supunha que o que eu ouvia era verdade e, mesmo assim eu não acreditava naquilo. Eu dizia: “É,” e em seguida pensava “Não pode ser.”

Estes sermões deixaram apenas fracas impressões em minha mente. Eu não estava convencido.

Eu não desejava ser “convertido”, não queria um “novo coração” e não tinha qualquer desejo de “renascer”.

Mas eu ouvi um sermão que tocou meu coração, que deixou sua marca como uma cicatriz em minha mente.

Um domingo, eu fui com meu irmão ouvir um pregador batista do Livre Arbítrio. Ele era um homem grande, vestido como fazendeiro, mas ele era um orador. Ele conseguia pintar um quadro usando palavras.

Ele escolher para seu texto a parábola “o rico homem e Lázaro”. Ele descreveu Dives, o homem rico — seu modo de vida, os excessos a que se dedicada, sua extravagância, suas orgias noturnas, seus lençóis púrpura e finos, seus festins, suas vinhas e suas belas mulheres.

Em seguida, ele descreveu Lázaro, sua pobreza, seus andrajos e ruínas, seu pobre corpo carcomido pela doença, as cascas e migalhas que ele devorava, os cães que tinham pena dele. Ele pintava sua vida solitária, sua morte sem amigos.

A seguir, mudando o tom, de piedade para triunfo — saltando de lágrimas às alturas da exaltação — da derrota à vitória — ele descreveu a gloriosa companhia de anjos, que com asas brancas e estendidas carregavam a alma do miserável desprezado para o Paraíso — para o seio de Abraão.

Então, mudando sua voz para desprezo e censura, ele contou a morte do homem rico. Ele estava em seu palácio, em sua cama de luxo, o ar pesado com perfume, o quarto cheio de servos e médicos. Seu ouro era inútil então. Ele não podia comprar outro alento. Ele morreu, e no inferno ele abriu os olhos, em tormento.

Em seguida, assumindo uma atitude dramática, colocando sua mão direita na orelha, ele sussurrou, “Ouça! Eu ouço a voz do homem rico. O que ele está dizendo? Ouça! “Pai Abraão! Pai Abraão! Eu peço que mande Lázaro, e que ele mergulhe a ponta de seu dedo em água e refresque minha língua seca, porque estou torturado nestas chamas.”

“Oh, meus ouvintes, eles vem fazendo este pedido por mais de mil e oitocentos anos. E por milhões de anos mais este lamento cruzará o golfo que existe entre os salvos e os perdidos, e ainda será ouvido o grito: “Pai Abraão! Pai Abraão! Eu peço que mande Lázaro, e que ele mergulhe a ponta de seu dedo em água e refresque minha língua seca, porque estou torturado nestas chamas.”

Pela primeira vez compreendi o dogma do sofrimento eterno — apreciado “as ondas agradáveis de grande alegria”. Pela primeira vez minha imaginação apreendeu a altura e a profundidade do horror cristão. Então, eu disse: “É uma mentira e eu odeio sua religião. Se for verdade, eu odeio o seu Deus”.

A partir daquele dia, eu não tinha mais medo, nenhuma dúvida. Para mim, naquele dia as chamas do inferno foram apagadas. A partir daquele dia, eu odiei apaixonadamente todos os credos ortodoxos. Aquele sermão fez algum bem.

II

Desde minha infância, eu ouvia leituras e lia a Bíblia. De manhã e à noite o volume sagrado era aberto e as preces feitas. A Bíblia foi minha primeira história, os Judeus o primeiro povo e os eventos narrados por Moisés e outros escritores inspirados e aqueles preditos pelos profetas eram as coisas mais importantes. Em outros livros eu encontrava os pensamentos e sonhos de homens, mas na Bíblia estavam as sagradas verdades de Deus.

Ainda assim, apesar de meu ambiente, minha educação, eu não tinha amor por Deus. Ele era tão econômico em misericórdia, tão extravagante ao assassinar, tão ansioso para matar, tão pronto a assassinar que eu o odiei do fundo do coração. A seu comando, bebês eram degolados, mulheres violadas e o cabelo branco da idade trêmula manchado de sangue. Este Deus visitava as pessoas com peste — enchia as casas e cobria as ruas com os moribundos e os mortos — via bebês morrendo de fome nos seios murchos de pálidas mães, ouvia os soluços, vias as lágrimas, as faces chupadas, os olhos engazeados, as sepulturas recém cavadas e permanecia tão impiedoso como a peste.

Este Deus retinha a chuva — causando fome, via os olhos raivosos da fome — as formas devastadas, os lábios brancos, via mães comendo bebês e permanecia tão feroz quanto a fome.

Parece impossível para o homem civilizado amar ou adorar ou respeitar o Deus do Antigo Testamento. Uma homem realmente civilizado, uma mulher realmente civilizada, deve ter por um Deus deste tipo o desprezo e repúdio.

Mas, naqueles tempos, as pessoas boas justificavam Jeová em seu tratamento aos hereges. Os inúteis que eram mortos eram idólatras e, portanto, não deviam viver.

De acordo com a Bíblia, Deus nunca revelou-se a estas pessoas e ele sabia que sem uma revelação eles não poderiam saber que ele era o Deus verdadeiro. De quem é, portanto, a culpa de que eles fossem hereges?

Os cristãos diziam que Deus tinha o direito de destruí-los porque eles os havia criado. Para que ele os criou? Ele sabia, quando os fez, que eles seriam comida para a espada. Ele sabia que ele teria o prazer de vê-los assassinados.

Como última resposta, como desculpa final, os adoradores de Jeová diziam que todas estas coisas horríveis aconteceram sob a “antiga aplicação” de lei rígida, e justiça absoluta e que agora, sob a “nova aplicação” tudo tinha mudado — a espada da justiça tinha sido embainhada e o amor entronizado. No Velho Testamento, diziam, Deus é o juiz — mas no Novo, Cristo é misericordioso. Na realidade, o Novo Testamento é infinitamente pior que o Antigo. No Antigo não existe ameaça de sofrimento eterno. Jeová não tinha prisão eterna — não tinha fogo eterno. Seu ódio terminava na sepultura. Sua vingança era satisfeita quando seu inimigo estava morto.

No Novo Testamento, a morte não é o fim, mas o início da punição que não tem fim. No Novo Testamento, a maldade de Deus é infinita e a sua fome de vingança eterna.

O Deus ortodoxo, quando vestido em carne humana, disse a seus discípulos que não resistissem ao mal, que amassem seus inimigos, e quando lhes batessem na face que dessem a outra, e ainda assim nos dizem que este mesmo Deus, com os mesmos lábios amorosos, pronunciou estas palavras duras e diabólicas; “Parti vós, malditos, para o fogo eterno, preparado para o demônio e seus anjos.”

Estas são as palavras de “amor eterno”.

Nenhum ser humano tem imaginação suficiente para conceber este horror infinito.

Toda a raça humana sofreu na guerra e pobreza, em peste e fome, e fogo e inundação — todas as dores de todas as doenças e todas as mortes — tudo isso é nada se comparado às agonias a serem suportadas por uma alma danada.

Este é o consolo da religião cristã. Esta é a justiça de Deus – a misericórdia de Cristo.

Este dogma aterrorizante, esta mentira infinita, tornaram-me em inimigo implacável do Cristianismo. A verdade é que esta crença no sofrimento eterno tem sido o perseguidor real. Ela fundou a Inquisição, forjou as cadeias e forneceu os ferros em brasa. Ela mergulhou em escuridão as vidas de muitos milhões. Ele tornou o berço tão terríveis quanto o ataúde. Ela escravizou nações e derramou o sangue de incontáveis milhares. Ela sacrificou os mais sábios, os mais corajosos e os melhores. Ele subverteu a idéia de justiça, arrancou do coração a misericórdia, transformou homens em inimigos e baniu a razão do cérebro.

Como uma serpente venenosa, ela se arrasta, se encolhe e cissia em todos os credos ortodoxos.

Ela torna o homem uma vítima eterna e Deus um inimigo eterno. Ela é o horror infinito. Cada igreja onde ela é ensinada é uma maldição pública. Cada pregador que a ensina é um inimigo da humanidade. Sob este dogma cristão, a selvajaria não pode ir. Ela é o infinito de maldade, ódio e vingança.

Nada poderia ser acrescentado ao horror do inferno, exceto a presença de seu criador, Deus.

Enquanto viver, enquanto puder respirar, eu negarei com todas as minhas forças, e odiarei com todas as gotas de meu sangue, esta mentira infinita.

Nada me dá maior alegria que saber que esta crença no sofrimento eterno está se enfraquecendo a cada dia — que milhares de ministros estão envergonhados dela. Dá-me alegria saber que os cristãos estão se tornando misericordiosos, tão misericordiosos que o fogo do inferno está em fogo baixo — bruxuleante, abafado pelas cinzas, destinado a extinguir-se para sempre dentro de poucos anos.

Por séculos, o Cristianismo foi um hospício. Papas, cardeais, bispos, padres, monges e hereges eram todos insanos.

Apenas alguns — quatro ou cinco em um século eram são de coração e cérebro. Apenas uns poucos, apesar do ruído e estrondo, apesar dos gritos selvagens, ouviram a voz da razão. Apenas alguns, na orgia selvagem da ignorância, medo e zelo preservaram a perfeita calma proporcionada pela sabedoria.

Avançamos. Dentro de poucos anos os cristão se tornarão — esperamos — suficientemente humanos e sensíveis para negar o dogma que preenche os anos intermináveis com sofrimento. Eles deveriam saber agora que este dogma é absolutamente inconsistente com a sabedoria, a justiça e bondade de seu Deus. Eles deveriam saber que sua crença no inferno, dá ao Espírito Santo – a Pomba – o bico do abutre, e enche a boca da ovelha de Deus com as presas de uma víbora.

III

Em minha juventude eu li livros religiosos — livros sobre Deus, sobre a reconciliação — sobre a salvação pela fé e sobe os outros mundos. Fiquei familiarizado com os comentaristas — com Adam Clark que pensava ter a serpente seduzido nossa mãe Eva e era de fato o pai de Caim. Ele também acreditava que os animais, ainda na arca, tiveram suas naturezas modificadas a tal ponto que eles devoravam palha juntos e apreciavam a companhia uns dos outros — prefigurando assim o milênio abençoado. E li Scott, que era um teólogo natural que realmente pensava que a história de Phaeton — dos cavalos selvagens cruzando o céus — corroborava a história de Josué tendo parado o sol e a lua. Assim, eu li Henry e MacKnight e descobri que Deus amava tanto o mundo que ele mudou de idéia para danar uma grande maioria da raça humana. Eu li Cruden, que fez a grande concordância e fez os milagres tão pequenos e prováveis tanto quanto podia.

Lembro-me de que ele explicou o milagre da alimentação dos Judeus errantes com codornizes, dizendo que mesmo atualmente um número imenso de codornizes cruzavam o Mar Vermelho, e que algumas vezes, quando cansadas, eles pousavam em navios que afundavam com seu peso. O fato é que a explicação era difícil de acreditar quanto o fato de que o milagre não fez qualquer diferença para o devoto Cruden.

Já faz muito tempo que li os Institutos de Calvino, um livro calculado para produzir, em qualquer mente natural, um considerável respeito pelo Demônio..

Eu li as Evidências de Paley e descobri que a evidência de engenhosidade na produção do mal, em tramar o danoso, era pelo menos igual à evidência tendente a mostrar o uso da inteligência na criação daquilo que chamamos bem.

Você sabe que o argumento do relógio é o maior esforço de Paley. Um homem encontra um relógio, e este é tão maravilhoso que ele conclui que o relógio deve ter um criador. Ele encontra o criador e este é muito mais maravilhoso que o relógio e então ele diz que o criador também deve ter um criador. Então ele encontra Deus, o criador do homem, e ele é tão mais maravilhoso que o homem que é impossível que tenha tido um criador. Isto é o que os advogados chamam de um desvio de petição.

De acordo com Paley, não pode existir desenho sem desenhista — mas pode existir um desenhista sem um desenho. A maravilha do relógio sugeria o relojoeiro, e a maravilha do relojoeiro sugeria o criador, e a maravilha do criador demonstrava que ele não fora criado — mas era incriado e eterno.

Tínhamos Edwards em The Will, onde o reverendo autor demonstra que a necessidade não tem efeito sobre a responsabilidade — e que quando Deus cria um ser humano, e ao mesmo determina e decreta exatamente o que aquele ser fará e será, o ser humano é responsável e Deus, em sua justiça e misericórdia tem o direito de torturar a alma daquele ser humano para sempre. E ainda assim Edwards diz que ele ama a Deus.

O fato é que se você acredita em um Deus infinito, e também em punição eterna, então você precisa admitir que Edwards e Calvino estavam absolutamente certos. Não existe escapatória de suas conclusões se você admitir suas premissas. Eles eram infinitamente cruéis, suas premissas infinitamente absurdas, seu Deus infinitamente cruel e sua lógica perfeita.

E, ainda assim, eu tenho a gentileza e a candura de dizer que Calvino e Edwards eram ambos insanos.

Tivemos uma enorme quantidade de literatura teológica. Havia Jenkin sobre a Reconciliação, que demonstrava a sabedoria de Deus criando uma maneira pela qual o sofrimento de inocentes poderia justificar a culpa. Ele tentava demonstrar que as crianças poderiam ser justamente punidas pelos pecados de seus ancestrais, e que os homens podiam, se tivessem fé, ser justamente creditados com as virtudes de outros. Nada poderia ser mais devoto, ortodoxo e idiota. Mas, nem toda a nossa teologia era em prosa. Tínhamos Milton com sua milícia celestial com seu grande e descuidado Deus, seu orgulhoso e astuto Demônio — suas guerras entre imortais, e todos os sublimes absurdos que a religião gravou no cérebro do homem cego.

A teologia ensinada por Milton era cara ao coração dos Puritanos. Ela foi aceita pela Nova Inglaterra e ela envenenou as almas e arruinou as vidas de milhares. O gênio de Shakespeare não poderia tornar poética a teologia de Milton. Na literatura do mundo não existe nada mais perfeitamente absurdo, fora os “livros sagrados”.

Tivemos os Pensamentos Noturnos de Young, e eu supunha que o autor era um devoto excepcional e um seguidos amantíssimo do Senhor. Ainda assim Young tinha um grande desejo de ser bispo, e para atingir este objetivo e ele fez campanha junto à amante do rei. Em outras palavras, ele um velho e fino hipócrita. Nos “Pensamentos Noturnos”, quase não existe uma linha natural e genuinamente honesta. É pretensão do começo ao fim. Ele não escreveu o que sentia, mas o que pensava que devia sentir.

Tivemos o Curso do Tempo de Pollok, com seu verme que nunca morre, as chamas inextinguíveis, a dor sem fim, seus demônios cobiçosos e seu Deus malignamente exultante. O poema assustador deve ter sido escrito em um hospício. Nele você encontra todos os gritos, gemidos e espasmos de maníacos quando eles retalham e despedaçam a carne dos outros. É tão cruel, horrível e infernal quanto o capítulo trinta e dois de Deuteronômio.

Todos conhecemos o belo hino que começa com a linha animadora: “Ouve-se das tumbas um som lúgubre”. Nada poderia ser mais apropriado para crianças. Está bem colocar um ataúde onde ele possa ser visto do berço. Quando uma mãe cuida de seu filho, uma cova aberta deve existir a seus pés. Isto tenderia a tornar seu bebê sério, reflexivo, religioso e sofredor.

Deus odeia o riso e despreza a alegria. Sentir-se livre, sem laços, irresponsável, alegra — esquecer os cuidados e a morte — ser invadido pela luz do sol sem o medo da noite — esquecer o passado, não ter pensamentos em relação ao futuro, não sonhar com Deus, céu ou inferno — estar intoxicado com o presente — ter consciência apenas do abraço e do beijo do ser amado — isto é pecado contra o Espírito Santo.

Mas nós tínhamos os poemas de Cowper. Ele era sincero. Ele era o oposto de Young. Tinha um olho observador, um coração gentil e um senso para o artístico. Ele simpatizava com tudo o que sofria — com os prisioneiros, os escravizados, os excluídos. Ele amava o belo. Não admira que a crença na punição eterna tornou sua alma amorosa insana. Não admira que as “ondas de grande alegria” apagaram a grande estrela de Esperança e deixaram seu coração despedaçado na escuridão do desespero.

Tínhamos muitos volumes de sermões ortodoxos, cheios de ódio e os terrores do julgamento por vir — sermões que tinham sido deixados por santos selvagens.

Tínhamos o Livro dos Mártires, mostrando que os cristão tinham imitado por séculos o Deus que eles adoravam.

Tivemos a história do Waldenses — da reforma da Igreja, Tivemos o Pilgrim’s Progress, a Chamada de Baxter e a Analogia de Butler.

Para empregar uma frase ou dito do Oeste, eu descobri que o Bispo Butler cavou mais serpentes do que matou — sugeriu mais dificuldades do que explicou — mais dúvidas do que explicações.

Entre tais livros minha juventude passou. Todas as sementes de Cristianismo — de superstição, foram semeadas em minha mente e cultivadas com grande diligência e cuidado.

Todo esse tempo eu nada soube de qualquer ciência — nada sobre o outro lado — nada sobre as objeções que foram levantadas contra as sagradas escrituras ou contra o credo Congregacional perfeito. Naturalmente, eu havia ouvido os ministros falar sobre blasfemos, ou infiéis, de escarnecedores que riam das coisas sagradas. Eles não responderam aos seus argumentos, mas eles despedaçaram seus caracteres e demonstraram pela fúria da afirmação que eles haviam feito o trabalho do Demônio. E ainda assim, a despeito de tudo o que ouvi — de tudo o que li, eu ainda não podia acreditar. Meu cérebro e meu coração diziam Não.

Por algum tempo eu abandonei os sonhos, as insanidades, as ilusões e desilusões e os pesadelos da teologia. Estudei astronomia, só um pouco — examinei mapas dos céus — aprendi os nomes de algumas das constelações — de algumas estrelas — descobri alguma coisa sobre o tamanho e a velocidade com que eles giravam em seus órbitas — obtive uma fraca concepção dos espaços astronômicos — descobri que algumas das estrelas conhecidas estavam tão distantes nas profundezas do espaço que sua luz, viajando a quase duzentas mil milhas por segundo, levava muitos anos para chegar até este pequeno mundo — descobri que, comparado às grandes estrelas, nossa terra não passa de um grão de areia — um átomo — descobri que a antiga crença de que todos os hóspedes dos céus tinham sido criados em benefício do homem era infinitamente absurda.

Comparei o que era realmente conhecido sobre as estrelas com a narração da criação conforme o Gênesis. Descobri que o escritor do livro inspirado não tinha qualquer conhecimento de astronomia — que ele era tão ignorante quanto um chefe Choctaw — quanto um Esquimó que dirigia cachorros. Pode alguém imaginar que o autor do Gênesis nada sabia sobre o sol — seu tamanho? Que ele conhecia Sirius, a Estrela Polar, com Capella, ou que ele sabia alguma coisa sobre os grupos de estrelas tão distantes que sua luz, agora visitando nossos olhos, tinha viajado por dois milhões de anos?

Se ele tivesse conhecimento destes fatos, teria ele dito que Jeová trabalhou quase seis dias para criar este mundo, e somente parte da tarde do quarto dia para criar o sol, a lua e todas as estrelas?

Ainda assim, milhões de pessoas insistem em que o autor do Gênesis foi inspirado pelo Criador de todos os mundos.

Agora, homens inteligentes, que não estão assustados, cujos cérebros não foram paralisados pelo medo, sabem que a história sagrada da criação foi escrita por um selvagem ignorante. A história é inconsistente com todos os fatos conhecidos, e toda estrela brilhando nos céus atesta que seu autor foi um bárbaro sem inspiração.

Eu admito que este escritor desconhecido foi sincero, que ele escreveu o que acreditava ser verdade — que ele fez o melhor que pode. Ele não alegou ser inspirado — não fingiu que a história havia sido contada a ele por Jeová. Ele simplesmente declarou os “fatos” como ele os compreendeu.

Após ter aprendido um pouco sobre as estrelas, conclui que este escritor, este escriba “inspirado”, foi enganado pelo mito e a lenda e que ele não sabia mais sobre a criação que o teólogo médio de nossos dias. Em outras palavras, que ele não sabia absolutamente coisa alguma.

E aqui, permitam-me dizer que os ministros que estão respondendo a mim estão voltando suas armas na direção errada. Estes reverendos senhores devem atacar os astrônomos. Eles devem amaldiçoar e vilificar Kepler, Copérnico, Newton, Herschel e Laplace. Estes homens foram os verdadeiros destruidores da História sagrada. Então, após terem-se livrado deles, eles podem declarar guerra às estrelas e contra o próprio Jeová por ter fornecido provas contra a verdade de seu livro.

Em seguida, estudei geologia — não muito, só um pouco — apenas o suficiente para entender de maneira geral os principais fatos que haviam sido descobertos, e algumas das conclusões a que se havia chegado. Aprendi alguma coisa da ação do fogo — da água — da formação de ilhas e continentes — das rochas sedimentares e ígneas — das medidas de carvão — das falésias calcárias, alguma coisa sobre recifes de coral — sobre os depósitos feitos por rios, o efeito de vulcões, de geleiras e de todo o mar ao redor — apenas o suficiente para saber que as rochas Laurencianas eram milhões de anos mais antigas que a grama sob os meus pés — apenas o suficiente para sentir-me seguro de que este mundo tem prosseguido em seu vôo ao redor do sol, girando em luz e sombra, por centenas de milhões de anos — apenas o suficiente para saber que o escritor “inspirado” nada sabia da história da terra — nada sobre as grandes forças da natureza — do vento e do fogo — forças que destruíram e construíram, arrebentaram e lavrou por estes incontáveis anos.

E permitam-me dizer mais uma vez aos ministros que eles não devem perder seu tempo respondendo a mim. Eles devem atacar os geólogos. Eles deveriam negar os fatos que foram descobertos. Eles deveriam lançar suas maldições contra os mares blasfemos, e investir suas cabeças contra as rochas infiéis.

Então, eu estudei biologia — não muito — só o suficiente para saber algo sobre formas animais, suficiente para saber que a vida existia quando as rochas Laurencianas foram formadas — apenas o suficiente para saber que ferramentas de pedra, ferramentas criadas por mãos humanas, foram encontradas misturadas aos ossos de animais extintos, ossos que haviam sido quebrados com aquelas ferramentas, e que aqueles animais haviam deixado de existir centenas de milhares de anos antes da criação de Adão e Eva.

Então eu tive certeza de que o registro “inspirado” era falso — que muitos milhões de pessoas haviam sido enganadas e que tudo o que havia sido ensinado a mim sobre a origem dos mundos e do homem era completamente falso. Senti que sabia que o Velho Testamento era a obra de homens ignorantes — que ele era uma mistura de verdade e erro, de sabedoria e bobagens, de crueldade e gentileza, de filosofia e de absurdo — que ele continha alguns pensamentos elevados, alguma poesia — uma grande quantidade de solenidade e lugares comuns — alguns histéricos, outros ternos, algumas preces malditas, algumas previsões insanas, algumas mentiras e alguns sonhos caóticos.

É claro que os teólogos combateram os fatos descobertos pelos geólogos, os cientistas e procuraram sustentar as Escrituras sagradas. Eles confundiram ossos de mastodonte com ossos de seres humanos e, através deles provaram que “existiam gigantes naqueles dias”. Eles interpretaram os fósseis dizendo que Deus os havia feito para experimentar nossa fé, ou que o Demônio tinha imitado os trabalhos do Criador.

Eles responderam aos geólogos dizendo que os “dias” no Gênesis eram longos períodos de tempo e que afinal o dilúvio pode ter sido local. Eles disseram aos astrônomos que o sol e a lua não foram efetivamente, mas apenas aparentemente, parados. E que a aparência foi produzida pela reflexão e refração da luz.

Eles desculparam a escravidão e a poligamia, o roubo e assassinato ocorridos no Velho Testamento dizendo que as pessoas estavam tão degradadas que Jeová foi obrigado a ceder à sua ignorância e preconceito.

De toda forma o clero procurou fugir dos fatos, escamotear a verdade para preservar a crença.

Primeiro, eles simplesmente negaram os fatos — então eles os banalizaram — em seguida eles os harmonizaram — então eles negaram que os tivessem negado. Em seguida, eles trocaram o significado do livro “inspirado” para ajustar-se aos fatos. Primeiro, eles disseram que se os fatos, conforme alegado, fossem verdadeiros, a Bíblia era falso e o próprio Cristianismo era superstição. Depois eles disseram que os fatos, conforme alegados, eram verdadeiros e que eles estabeleciam sem a menor dúvida a inspiração da Bíblia e a origem divina da religião ortodoxa.

Tudo o que eles não puderam evitar eles engoliram, e tudo o que eles não puderam engolir eles evitaram.

Desisti do Velho Testamento devido a seus erros, seus absurdos, sua ignorância e crueldade. Desisti do Novo porque ele assegurava a verdade do Antigo. Desisti dele por causa de seus milagres, suas contradições, porque Cristo e seus discípulos acreditavam na existência de demônios — discutiam e faziam acordos com eles e os expulsavam de pessoas e animais.

Isto em si é o bastante. Sabemos, se sabemos alguma coisa, que os demônios não existem — que Cristo nunca os expulsou, e se ele fingiu que fazia isto, ele era ignorante, desonesto ou louco.

Estas histórias sobre demônios demonstram a origem humana e ignorante do Novo Testamento. Desisti do Novo Testamento porque ele premia a credulidade e amaldiçoa os homens corajosos e honestos, e porque ele ensina o horror infinito do sofrimento eterno.

V

Tendo passado minha juventude lendo livros sobre religião — sobre o “novo nascimento” — a desobediência a nossos primeiros pais, o arrependimento, a salvação pela fé, a perversidade do prazer, as conseqüências degradantes do amor e a impossibilidade de se chegar ao céu sendo honesto e generoso, tendo se tornado de alguma forma cansado dos pensamentos desgastados e confusos, você pode imaginar minha surpresa, meu deleite quando li os poemas de Robert Burns.

Eu estava familiarizado com os escritos dos devotos e insinceros, os pios e petrificados, pós puros e sem coração. Aqui estava um homem naturalmente honesto. Eu conhecia os trabalhos daqueles que consideravam toda a natureza como depravada, e encaravam o amor como a herança e testemunho perpétuo do pecado original. Aqui estava um homem que tirava alegria do lodo, que transformava camponesas em deusas e que entronizou o homem honesto. Alguém cuja simpatia, com braços amorosos, abraçou todas as formas de vida sofredora, que odiava a escravidão de todo tipo, que era tão natural quanto o azul do céu, com o humor gentil como um dia de outono, com a presença de espírito tão afiada quanto a espada de Ituriel, um desprezo que açoitava como o hálito do simum. Um homem que amava este mundo, esta vida, as coisas corriqueiras e colocava acima de tudo os êxtases eletrizantes do amor humano.

Eu li e reli arrebatado, entre lágrimas e sorrisos, sentindo que um grande coração batia nas entrelinhas.

Os poetas religiosos, lúgubres, artificiais e espirituais foram esquecidos e permaneceram apenas como fragmentos, os horrores meio lembrados de sonhos monstruosos e distorcidos.

Eu tinha descoberto finalmente um homem natural, alguém que desprezava o credo cruel de sua pátria, e era corajoso e sensível o suficiente para dizer: “Todas as religiões são velhas fábulas de esposas, mas um homem honesto nada tem a temer, neste mundo ou no outro”.

Alguém que teve o gênio para escrever a Prece de São Willie — um poema que crucificou o Calvinismo e através de seu coração exangue trespassou uma estaca do senso comum — um poema que tornou toco credo ortodoxo motivo de desprezo — de riso eterno.

Burns tinha seus defeitos, suas fraquezas. Ele era intensamente humano. Ainda assim, eu preferiria aparecer bêbado na “Cadeira do Julgamento” e poder dizer que eu era o autor de “Um homem é homem por isso”, do que estar perfeitamente sóbrio e admitir que eu tinha vivido e morrido como um Presbiteriano Escocês.

Eu li Byron — li seu Caim, onde, como em Paraíso Perdido, o Demônio parece ser o melhor deus — li suas linhas belas, sublimes e amargas — li seu prisioneiro de Chillon — seu melhor — um poema que encheu meu coração de ternura, de piedade e de um ódio eterno à tirania.

Eu li a Rainha Mab de Shelley — um poema cheio de beleza, coragem, pensamento, simpatia, lágrimas e desprezo, onde uma alma corajosa destrói os muros da prisão e inunda as celas de luz. Eu li seu Skylark — uma chama voadora — apaixonada como sangue — terna como lágrimas — pura como a luz.

Eu li Keats, “cujo nome estava escrito em água” — li a Eva de St. Agnes, uma história contada com tal habilidade que este pobre mundo comum é transformado em uma terra de fadas — a Urna Grega, que enche a alma com um amor ainda mais ansioso, com todo o arrebatamento da canção imaginada — o Rouxinol — uma melodia onde existe a memória da tristeza — uma melodia que se extingue em lusco-fusco e lágrimas, atormentando os sentidos com sua perfeição.

E, então, eu li Shakespeare, as peças, os sonetos, os poemas — li tudo. Eu vi um novo céu e uma nova terra; Shakespeare, que conhecia o cérebro e o coração do homem — as esperanças e os medos, os amores e os ódios, os vícios e virtudes da raça humana: cuja imaginação leu os registros borrados pelas lágrimas, as páginas manchadas de sangue de todo o passado e viu se desfazerem a rolo esparramado de luz de esperança e amor; Shakespeare, que sondou cada profundeza — enquanto sobre pico mais alto caia a sombra de suas asas.

Eu comparei as Peças com os livros “inspirados” — Romeu e Julieta com os Cânticos de Salomão, Lear com Job e os Sonetos com os Salmos e descobri que Jeová não compreendia a arte da palavra. Eu comparei as mulheres de Shakespeare — suas mulheres perfeitas — às mulheres da Bíblia. Descobri que Jeová não era um escultor, nem um pintor — nem um artista — que faltava-lhe o poder de transformar argila em carne — a arte, o toque plástico que molda a forma perfeita — o hálito que lhe dá vida alegre e livre — o gênio que cria a perfeição.

Os livros sagrados de todo o mundo são escória imprestável e simples pedregulhos se comparados ao ouro faiscante e as gemas brilhantes de Shakespeare.

VI

Até esta época eu não havia lido nada contra nossa bendita religião, exceto o que havia encontrado em Burns, Byron e Shelley. Acidentalmente eu li Volney, que demonstra que todas as religiões são, ou foram, estabelecidas da mesma forma — que todas tinham seus Cristos, seus apóstolos, milagres e livros sagrados, e, em seguida, perguntava como é possível decidir qual delas é verdadeira. Uma questão que ainda espera por uma resposta.

Eu li Gibbons, o maior dos historiadores, que dominava seus fatos com tanta maestria quanto César suas legiões e aprendi que o Cristianismo é apenas um nome para Paganismo — para a antiga religião, estirpada de sua beleza — que alguns absurdos haviam sido trocado por outros — que alguns deuses haviam sido mortos — uma vasta multidão de demônios criada e que o inferno tinha sido ampliado.

E então eu li a Idade da Razão de Thomas Paine. Permitam-me contar alguma coisa sobre este homem sublime e difamado. Ele veio para este país um pouco antes da Revolução. Ele trazia uma carta de apresentação de Benjamin Franklin, naquela época o maior dos Americanos.

Na Filadélfia, Paine foi empregado como redator no Pennsylvania Magazine. Sabemos que ele escreveu pelo menos cinco artigos. O primeiro foi contra a escravidão, o segundo contra os duelos, o terceiro sobre o tratamento de prisioneiros — mostrando que o objetivo deveria ser reformar, não punir e degradar — o quarto sobre os direitos da mulher e o quinto em favor da formação de sociedades voltadas para a prevenção à crueldade contra crianças e animais.

Por ai pode-se ver que ele sugeriu as grandes reformas de nosso século.

A verdade é que ele trabalhou toda a sua vida pelo bem de seus conterrâneos e fez tanto para fundar a Grande República quanto qualquer outro homem que jamais esteve sob nossa bandeira. Ele deu seus pensamentos sobre religião — sobre as Escrituras sagradas, sobre as superstições de seu tempo. Ele era perfeitamente sincero e o que ele dizia era gentil e certo.

A Idade da Razão encheu de ódio os corações daqueles que amavam seus inimigos e o ocupante de cada púlpito ortodoxo tornou-se, e ainda é, um detrator apaixonado de Thomas Paine.

Nenhum respondeu — nem ninguém responderá a sua argumentação contra o dogma da inspiração — suas objeções à Bíblia.

Ele não se levantou acima de todas as superstições de sua época. Ao mesmo tempo em que odiava Jeová, ele louvava o Deus da Natureza, o criador e preservador de tudo. Nisto ele estava errado, pois como disse Watson em seu Resposta a Paine, o Deus da Natureza é tão sem coração e tão cruel quanto o Deus da Bíblia.

Mas Paine foi um dos pioneiros — um dos Titans, um dos heróis, que deu sua vida de bom grado, cada pensamento e cada ato, para libertar e civilizar a humanidade.

Eu li Voltaire — Voltaire, o maior homem de seu século, e que fez mais pela liberdade de pensamento e de expressão que qualquer outro ser humano ou “divino”. Voltaire, que rasgou a máscara da hipocrisia e encontrou atrás do sorriso pintado as dores do ódio. Voltaire que atacou a selvajaria da lei, as decisões cruéis de tribunais venais e resgatou vítimas da roda. Voltaire, que declarou guerra contra a tirania dos tronos, a cobiça e insensibilidade do poder. Voltaire, que encheu a carne dos padres com as setas pontiagudas e envenenadas de seu espírito e fez os piedosos ilusionistas que o amaldiçoavam em público, rirem de si mesmos particularmente. Voltaire que tomou o lado dos oprimidos, resgatou os desafortunados, lutou pelos obscuros e fracos, civilizou juizes, repeliu leis e aboliu a tortura em sua terra natal.

Em todas as direções, este incansável homem lutou contra o absurdo, o milagroso, o sobrenatural, o idiota, o injusto. Ele não tinha qualquer reverência com os velhos. Ele não era impressionado pela pompa e circunstância, por Crime coroado ou Pretensão mitrada. Sob a coroa ele via o criminoso, sob a mitra o hipócrita.

À barra de sua consciência, sua razão, ele levava o barbarismo e os bárbaros de seu tempo. Ele pronunciava o julgamento contra todos eles, e este julgamento foi confirmado pelo mundo inteligente. Voltaire acendeu a tocha e deu aos outros a chama sagrada. A luz ainda brilha e brilhará enquanto o homem amar a liberdade e procurar pela verdade.

Eu li Zenão, o homem que disse, séculos antes do nascimento de Cristo, que o homem não podia possuir seu semelhante.

“Não importa se você reclama um escrava por compra ou captura, o título é ruim. Aqueles que reclamam ter direito de propriedade sobre seus semelhantes, olham para dentro de um fosso e esquecem a justiça que deveria governar o mundo.”

Tive contato com Epicuro, que ensinava a religião da utilidade, da temperança, da coragem e da sabedoria, e que disse: “Porque deveria eu temer a morte? Se eu sou, a morte não é. Se a morte for, eu não sou. Porque deveria eu temer algo que não pode existir enquanto eu existo?”

Eu li sobre Sócrates, que em julgamento por sua vida, disse entre outras coisas, a seus juizes, estas maravilhosas palavras: “Durante minha vida, eu não procurei reunir fortuna e adornar meu corpo, mas eu procurei adornar minha alma com as jóias da sabedoria, da paciência e, acima de tudo, do amor pela liberdade.”

Assim, eu li sobre Diógenes, o filósofo que detestava o supérfluo — o inimigo do desperdício e da cobiça, e que um dia entrou no templo, aproximou-se reverentemente do altar, esmagou um piolho entre as unhas de seus polegares e disse solenemente: “O sacrifício de Diógenes a todos os deuses.” Isto parodiava a adoração do mundo — satirizava todos os credos e em um só ato colocava a essência da religião.

Diogenes deve ter sabido desta passagem “inspirada” — “Sem que sangue seja derramado, não existe remissão dos pecados.”

Eu comparei Zenão, Epícuro e Sócrates, três vilões hereges que nunca haviam ouvido falar no Velho Testamento ou nos Dez Mandamentos, a Abraão, Isaac e Jacó, três favoritos de Jeová, e eu fui depravado o suficiente para achar que os Pagão eram superiores aos Patriarcas — e ao próprio Jeová.

VII

Minha atenção voltou-se para outras religiões, aos livros sagradas, os credos e cerimônias de outras terras — da Índia, Egito, Assíria, Pérsia e das nações mortas ou moribundas.

Concluí que todas as religiões tinham a mesma base — a crença no sobrenatural — um poder acima da natureza que o homem podia influenciar através da adoração — por meio de sacrifícios e de preces.

Descobri que todas as religiões se apoiam em uma concepção errada da natureza — de que a religião de um povo era a ciência daquele povo, o que eqüivale a dizer, sua explicação do mundo — da vida e da morte — da origem e do destino.

Concluí que todas as religiões tinham substancialmente a mesma origem e que, na realidade, nunca houve a não ser uma religião no mundo. Os brotos e as folhas podem diferir, mas o tronco é o mesmo.

O pobre Africano que derrama seu coração para uma deidade de pedra está em um nível religioso exatamente igual aos padres de batina que suplicam a Deus. O mesmo erro, a mesma superstição dobra os joelhos e fecha os olhos de ambos. Ambos pedem auxílio ao sobrenatural, e nenhum deles tem o menor pensamento sobre a absoluta uniformidade da natureza.

Parece-me provável que a primeira cerimônia religiosa organizada foi a adoração do sol. O sol era o “Pai Céu”, o “Todo Vidente”, a fonte da vida — a lareira do mundo. O sol era visto com um deus que combatia a escuridão, o poder do mal, o inimigo do homem.

Existiram muitos deuses-sol, e eles parecem ter sido as principais deidades nas religiões antigas. Ele foram adorados em muitas terras, por muitas nações que passaram pela morte e o pó.

Apolo era um deus-sol e ele combateu e conquistou a serpente da noite. Baldur era um deus-sol. Ele estava apaixonado pela Aurora — a virgem. Chrishna era um deus-sol, em seu nascimento, o Ganges foi estremecido de sua fonte até o mar, e todas as árvores, os mortos e os vivos, floresceram. Hércules era um deus-sol e também o foi Sansão, cuja força estava nos cabelos — isto é em seus raios. Dalila, a sombra — a escuridão — arrancou-lhe as forças. Osiris, Baco e Mitra, Hermes, Buda e Quetzalcoatl, Prometeu, Zoroastro e Perseu, Cadom, Lao-Tze, Fo-hi, Horus e Ramsés, todos eles foram deuses-sol.

Todos estes deuses tinham deuses como pais e virgens como mães. O nascimento de quase todos eles foi anunciado por estrelas, celebrados por música celestial e vozes declararam que as bênçãos tinham chegado a este pobre mundo. Todos estes deuses nasceram em lugares humildes — em cavernas, sob árvores, em estalagens comuns e tiranos tentaram matá-los quando eram bebês. Todos estes deuses-sol nasceram no solstício de inverno — no Natal. Quase todos eles eram adorados por “homens sábios”. Todos eles jejuaram por quarenta dias — todos eles ensinavam usando parábolas — todos eles realizaram milagres — todos sofreram morte violenta e todos eles ressuscitaram.

A história destes deuses é exatamente igual à história do nosso Cristo.

Isto não é uma coincidência — um acidente. Cristo era um deus-sol. Cristo era um novo nome para uma velha biografia — uma sobrevivência — o último dos deuses-sol. Cristo não era um homem, mas um mito — não uma vida, mas uma lenda.

Descobri que não somente tínhamos tomado emprestado nosso Cristo — mas que todos os nossos sacramentos, símbolos e cerimônias eram herança que recebemos do passado enterrado. Não existe coisa alguma original no Cristianismo.

A cruz era um símbolo a milhares de anos antes de nossa era. Era um símbolo de vida, de imortalidade — do deus Agni e foi esculpida em tumbas muitas eras antes que uma linha de nossa Bíblia tivesse sido escrita.

O batismo é muito mais antigo que o Cristianismo e que o Judaísmo. Os Hindus, Egípcios, Gregos e Romanos tinham água benta muito antes de um católico ter vivido. A eucaristia foi emprestada dos Pagãos. Ceres era a deusa dos campos — Baco era do vinho. No festival da colheita eles faziam bolos de trigo e diziam: “Esta é a carne da deusa”. Eles bebiam vinho e gritavam: “Este é o sangue de nosso deus.”

Os Egípcios tinham uma Trindade. Eles adoravam Osiris, Isis e Horus, milhares de anos antes que o Pai, Filho e Espírito Santo fossem conhecidos.

A Árvore da Vida cresceu na Índia, na China e entre os Aztecas, muito antes que o Jardim do Éden tivesse sido plantado.

Muito antes que nossa Bíblia fosse conhecida, outras nações tinham seus livros sagrados.

Os dogmas da Queda do Homem, do Arrependimento e Salvação pela Fé, são muito mais antigos que nossa religião.

Em nosso evangelho abençoado — em nosso “esquema divino” — não existe nada de novo — nada original. Tudo velho — tudo emprestado, recortado e remendado.

Então eu concluí que todas as religiões tinham sido naturalmente produzidas e que todas eram variações, modificações de uma só — então eu senti que sabia serem todas o trabalho de um homem.

VIII

Os teólogos sempre insistiram que seu Deus era o criador de todas as coisas vivas — que as formas, partes, funções, cores e variedades de animais eram as expressões de sua fantasia, gosto e sabedoria — que ele os fez a todos precisamente como são hoje — que ele inventou barbatanas e pernas e asas — que ele forneceu a eles as armas de ataque, os escudos de defesa — que ele os formou com referência a comida e clima, levando em consideração todos os fatos que afetavam a vida.

Eles insistiam em que o homem era uma criação especial, não relacionada de forma alguma com os animais abaixo dele. Eles também afirmavam que todas as formas de vegetação, de musgos a florestas eram exatamente o são hoje, no momento em que foram criados.

Homens de gênio que em sua maioria eram livres de preconceito religioso, estavam examinando estas coisas — estavam procurando por fatos. Eles estavam examinando os fósseis de animais e plantas — estudando as formas dos animais — seus ossos e músculos — o efeito do clima e da comida — as estranhas modificações pelas quais eles haviam passado.

Humboldt tinha publicado suas leituras — cheias de grandes pensamentos — com esplêndidas generalizações — com sugestões que estimulavam o espirito de investigação e com conclusões que satisfaziam a mente. Ele demonstrava a uniformidade da Natureza — o parentesco de tudo o que vive e cresce — que respira e pensa.

Darwin, com sua Origem das Espécies, sua teoria sobre a Seleção Natural, a Sobrevivência do Mais Apto e a influência do ambiente, lançou uma inundação de luz sobre os grandes problemas da vida animal e vegetal.

Estas coisas tinham sido adivinhadas, profetizadas, afirmadas, indicadas por muitos outros, mas Darwin, com paciência infinita, com um candor e cuidado perfeitos, encontrou os fatos, cumpriu as profecias e demonstrou a verdade das adivinhações, indicações e afirmativas. Ele era, a meu ver, o mais preciso observador, o melhor juiz do significado e valor de um fato, o maior Naturalista que o mundo jamais produziu.

A visão teológica começou a parecer pequena e ruim.

Spencer ofereceu sua teoria da evolução e a sustentou com base em incontáveis fatos. Ele colocou-se em uma grande altura e com os olhos de um filósofo, um pensador profundo, observou o mundo. Ele influenciou o pensamento dos mais sábios.

A teologia parecia mais absurda do que nunca.

Huxley juntou-se aos que apoiavam Darwin. Nenhum homem jamais teve uma espada mais afiada — um escudo melhor. Ele desafiou o mundo. Os grandes teólogos e os pequenos cientistas — aqueles que tinham mais coragem que bom senso, aceitaram o desafio. Seus pobres corpos foram levados por seus amigos.

Huxley tinha inteligência, habilidade, gênio e a coragem de expressar seu pensamento. Ele era absolutamente leal àquilo que ele considerava verdade. Sem preconceito e sem medo, ele acompanhou os passos da vida, das formas mais baixas até as mais altas.

A teologia parecia menor ainda.

Haeckel começou com a célula mais simples, foi de mudança em mudança — de forma em forma — seguiu a linha do desenvolvimento, o caminho da vida, até que chegou à raça humana. Era tudo natural. Não havia interferência externa.

Eu li os trabalhos destes grandes homens — de muitos outros — e tornei-me convencido de que eles estavam certos, e de que todos os teólogos — todos os que acreditavam na “Criação especial” estavam absolutamente errados.

O Jardim do Éden se apagou, Adão e Eva voltaram ao pó, a serpente rastejou de volta à grama e Jeová tornou-se um mito miserável.

IX

Dei mais um passo. O que é a matéria — substância? Pode ela ser destruída — aniquilada? É possível conceber a destruição do menor átomo da substância? Ela pode ser moída até virar pó — alterada de sólido para líquido — de líquido para gás — mas tudo permanece. Nada se perde — nada é destruído.

Deixe um Deus infinito, se existir algum, atacar um grão de areia — atacá-lo com poder infinito. Ele não pode ser destruído. Ele não pode se render. Ele desafia toda a força. A substância não pode ser destruída.

Então dei mais um passo.

Se a matéria não pode ser destruída, não pode ser aniquilada, ela não pode ter sido criada.

O indestrutível deve ser incriável.

E, então, perguntei-me: O que é força?

Não podemos conceber a criação da força, ou sua destruição. A força pode ser modificada de uma forma para outra — de movimento para calor — mas não pode ser destruída — aniquilada.

Se a força não pode ser destruída, ela não pode ter sido criada. Ela é eterna.

Outra coisa – a matéria não pode existir separada da força. A foça não pode existir separada da matéria. A matéria não ter existido antes da força. A força não poderia ter existido antes da matéria. A matéria e a força somente podem ter sido concebidas juntas. Isto foi demonstrado por diversos cientistas, mas mais claramente, mais forçosamente por Buchner.

O pensamento é uma forma de força, consequentemente ele não poderia ter causado ou criado matéria. A inteligência é uma forma de força e não poderia ter existido sem ou separada da matéria. Sem substância não poderia ter existido mente, nem vontade, nem força de qualquer tipo e não poderia ter havido substância sem força.

A matéria e a força não foram criadas. Elas existiram desde a eternidade. Elas não podem ser destruídas.

Não existiu, não existe criador. Então surgiu a pergunta; Existe um Deus? Existe um ser de inteligência, poder e bondade infinitos que governa o mundo?

Não pode haver bondade sem muita inteligência — mas parece-me que esta inteligência perfeita e bondade perfeita devem aparecer juntas.

Na natureza eu vejo, ou pareço ver, bem e mal — inteligência e ignorância — bondade e crueldade — cuidado e desleixo — economia e desperdício. Eu vejo meios que não atingem os fins — desígnios que parecem falhar.

Parece-me infinitamente cruel para a vida alimentar-se de vida — criar animais que devoram outros.

Os dentes e bicos, as garras e presas, que rasgam e dilaceram, enchem-me de horror. O que pode ser mais assustador que um mundo em guerra? Cada folha um campo de batalha — cada flor um Gólgota — em cada gota de água perseguição, captura e morte. Sob cada pedaço de casca, a vida esperando por vida. Em cada folha de grama, alguma coisa que mata — alguma coisa que sofre. Em todo lugar o forte vivendo do fraco — o superior do inferior. Em todo lugar, o fraco, o insignificante, vivendo no forte — o inferior sobre o superior — a comida superior para o inferior — homens sacrificados em favor de micróbios.

Assassinato universal. Em todo lugar a dor, doença e morte — morte que não espera por formas encurvadas e cabelos grisalhos, mas ataca bebês e jovens felizes. Morte que tira a mãe de sua criança sardenta indefesa — morte que enche o mundo com dor e lágrimas.

Como pode um cristão ortodoxo explicar estas coisas?

Eu sei que a vida é boa. Lembro-me da luz do sol e da chuva. Em seguida, penso em terremotos e inundações, Não esqueço a saúde e a colheita, lar e amor, mas e a peste e a fome? Não consigo harmonizar todas estas contradições — estas bênçãos e agonias — com a existência de um Deus poderoso, sábio e infinitamente bom.

O teólogo diz que o que chamamos mal é para nosso bem — que somos colocados neste mundo de pecado e dor para desenvolver o caráter. Se isso for verdade, eu pergunto porque o bebê morre? Milhões e milhões respiram umas poucas vezes e falecem nos braços de suas mães. A eles não é permitido desenvolver caráter.

O teólogo diz que as serpentes receberam presas para se protegerem contra seus inimigos. Porque Deus que as fez, faz inimigos? Porque muitas espécies de serpentes não têm presas?

O teólogo diz que Deus deu armadura ao hipopótamo, cobriu seu corpo, exceto na parte inferior com placas e escamas, para que outros animais não pudessem cortar com os dentes ou presa. Mas o mesmo Deus criou os rinocerontes e lhes deu um chifre sobre o nariz, com o qual ele destripa o hipopótamo.

O mesmo Deus fez a águia, o abutre, o falcão e suas presas indefesas.

Em cada mão parece haver um desígnio para derrotar desígnio.

Se Deus criou o homem — se ele é o pai de todos nós, porque ele fez os criminosos, os loucos, os deformados e os idiotas?

O homem inferior deve agradecer a Deus? A mãe que embala em seu seio uma criança idiota deve agradecer a Deus? O escravo deve agradecer a Deus?

O teólogo diz que Deus governa o vento, a chuva, o raio. Como então devemos interpretar o ciclone, a inundação, a seca, o relâmpago flamejante que mata?

Suponhamos que temos um homem neste país que pudesse controlar o vento, a chuva e o relâmpago, e suponhamos que o elejamos para governar estas coisas e suponhamos que ele permitisse que estados inteiros secassem e definhassem, e ao mesmo tempo desperdiçasse a chuva no mar. Suponhamos que ele permitisse que o vento destruísse cidades e esmagasse completamente milhares de homens e mulheres e permitisse que os raios ceifassem a vida de mães e bebês. O que diríamos? O que iríamos pensar de um tal selvagem?

E, ainda assim, de acordo com os teólogos, isto é exatamente o caminho seguido por Deus.

O que pensamos de um homem que não protege seus amigos quando tem este poder? Mesmo assim o Deus dos Cristãos permitiu que seus inimigos torturem e queimem seus amigos, seus adoradores.

Quem tem engenhosidade suficiente para explicar isso?

Que homem bom, tendo o pode de impedir, permitiria que o inocente fosse preso, acorrentado em masmorras, e suspirar contra as paredes gotejantes o resto de sua miserável vida?

Se Deus governa o mundo, porque a inocência não é um escudo perfeito? Porque a injustiça triunfa?

Quem pode responder a estas perguntas?

Como resposta, o homem honesto e inteligente deve dizer: não sei.

X

Este Deus, se existir, deve ser uma pessoa — um ser consciente. Quem pode imaginar uma personalidade infinita? Este Deus deve ter força, e não podemos conceber a força separada da matéria. Este Deus deve ser material. Ele deve ter os meios pelos quais ele transforma força nisso que chamamos pensamento. Quando ele pensa, usa força e a força precisa se substituída. Ainda assim é-nos dito que ele é infinitamente sábio. Se ele for, ele não pensa. Pensamento é uma escada — um processo pelo qual chegamos a uma conclusão. Ele que conhece todas as conclusões não pode pensar. Ele não pode ter esperança ou medo. Quando o conhecimento é perfeito não pode haver paixão, nenhuma emoção. Se Deus é infinito ele não deseja. Ele tem tudo. Ele que não deseja nada não age. O infinito deve permanecer em eterna calma.

É tão impossível conceber tal ser quanto imaginar um triângulo quadrado ou pensar em um círculo sem diâmetro.

Ainda assim nos dizem que é nosso dever amar a Deus. Podemos amar o desconhecido, o inconcebível? Pode ser nosso dever amar alguém? É nosso dever agir justamente, honestamente, mas não pode ser nosso dever amar. Não podemos estar sob obrigação de admirar uma pintura — ser encantado por um poema — ou comovido com música. A admiração não pode ser controlada. O gosto e o amor não são servos da vontade. O amor é, e deve ser livre. Ele surge do coração como perfume de uma flor.

Por milhares de eras os homens e as mulheres tem tentado amar os deuses — tentado abrandar seus corações — tentado obter a ajuda deles.

Eu os vejo, todos. O panorama desfila diante de mim. Eu os vejo com as mãos estendidas — com os olhos reverentemente fechados — adorando o sol. Eu os vejo inclinando-se, em seu medo e necessidade, diante de pedras meteóricas — implorando a serpentes, bestas e árvores sagradas — rezando a ídolos esculpidos em madeira e pedra. Eu os vejo construindo altares aos poderes invisíveis, manchando-os com sangue de crianças e animais. Eu vejo os incontáveis sacerdotes e ouço seus cantos solenes. Eu vejo as vítimas moribundas, os altares fumegantes, os turíbios baloiçantes, e as nuvens que sobem. Eu vejo os homens meio deuses — os Cristos pesarosos em muitas terras. Eu vejo as coisas comuns da vida transformadas em milagres à medida que passam de boca a boca. Eu vejo os profetas loucos lendo o livro secreto do destino por sinais e sonhos. Eu os vejo, todos — os assírios cantando preces a Asshur e Ishtar — os hindus adorando Brahma, Vishnu e Daupadi, dos braços brancos — os caldeus sacrificando a Bel e Hea — os egípcios curvando-se para Ptah e Fta, Osiris e Isis — os medas aplacando a tormenta, adorando o fogo — os babilônios suplicando a Bel e Murodach — eu os vejo, todos, junto ao Eufrates, o Tigre, o Ganges e o Nilo. Eu vejo os gregos construindo templos a Zeus, Netuno e Vênus. Vejo os romanos ajoelhados para centenas de deuses. Eu vejo outros desprezando ídolos e derramando suas esperanças e medos a uma vaga imagem na mente. Eu vejo as multidões, com as bocas abertas, recebendo como verdade os mitos e fábulas dos anos passados. Eu os vejo dar seu trabalho, sua riqueza para vestir os sacerdotes, para construir tetos altos, amplos espaços, os domos brilhantes. Eu os vejo vestidos em andrajos, amontoados em barracas e tocas, devorando migalhas e restos, que eles devem dar mais a fantasmas e deuses. Eu os vejo fazer seus credos cruéis e encher o mundo com ódio, guerra e morte. Eu os vejo com suas faces no pó nos escuros dias de pragas e morte súbita, quando as faces estão lívidas e os lábios brancos por falta de pão. Eu escuto as preces deles, seus suspiros seus soluços. Eu os vejo beijar os lábios inconscientes enquanto suas quentes lágrimas caem sobre as pálidas faces dos mortos. Eu vejo as nações, à medida que desaparecem. Eu os vejo capturados e escravizados. Eu vejo seus altares misturarem-se à terra comum, seus templos desabarem lentamente de volta ao pó. Eu vejo seus deuses ficarem velhos e fracos, enfermos e desmaiarem. Eu os vejo caírem de tronos vagos e enfumaçados, indefesos e mortos. Os adoradores não recebem ajuda. A injustiça triunfa. Trabalhadores são pagos com o chicote — bebês são vendidos — os inocente é preso em cadafalsos e os heróis perecem em chamas. Eu vejo terremotos devorar, vulcões crescer, ciclones destroçar, inundações destruir, e raios matar.

As nações pereceram. Os deuses morreram. O trabalho e a riqueza estão perdidos, Os templos foram construídos em vão e todos aqueles que rezavam morreram sem resposta no ar negligente.

Então eu perguntei-me: Existe um poder sobrenatural — uma mente arbitrária — um Deus entronizado — uma vontade suprema que governa as marés e corrente do mundo — a quem se curvam todas as causas?

Não nego. Não sei – mas não creio. Eu creio que o natural é supremo — que da corrente infinita nenhum elo pode ser perdido ou quebrado — que não existe poder sobrenatural que possa responder a preces — nenhum poder que a adoração possa persuadir ou mudar — nenhum poder que se importe com o homem.

Acredito que com braços infinitos, a Natureza abraça tudo–que não existe interferência — nenhuma possibilidade de que por trás de cada evento estão as causas necessárias e incontáveis e que além de cada evento estarão e deverão estar os efeitos necessários e incontáveis.

O homem deve proteger-se. Ele não pode depender do sobrenatural — de um pai imaginário nos céus. Ele deve proteger-se descobrindo os fatos na Natureza, desenvolvendo seu cérebro, para que ele possa superar os obstáculos e aproveitar as forças da Natureza.

Existe um Deus?

Eu não sei.

O homem é imortal?

Eu não sei.

Uma coisa eu sei, é que, nem a esperança, nem o medo, crença, nem negação pode mudar o fato. É o que é, e será como deve ser.

Aguardamos e temos esperança.

XI

Quando fiquei convencido de que o Universo é natural — que todos os espíritos e deuses são mitos, entrou em meu cérebro, em minha alma, em cada gota de meu sangue o senso, o sentimento, a alegria da liberdade. As paredes de minha prisão desabaram, a masmorra foi inundada de luz e todas as fechaduras e barras e algemas tornaram-se pó. Eu não era mais um servo ou escravo. Não havia para mim mestre em todo o mundo — nem mesmo no espaço infinito. Eu estava livre — livre para pensar, para expressar meus pensamentos — livre para viver meu próprio ideal — livre para viver por mim mesmo e aqueles que eu amava — livre para usar minhas próprias faculdades, todos os meus sentidos — livre para abrir as asas da imaginação — livre para investigar, para adivinhar e sonhar e ter esperança — livre para julgar e determinar por mim mesmo — livre para rejeitar todos os credos ignorantes e cruéis, todos os livros “inspirados” que os selvagens tinham produzido, e todas as bárbaras lendas do passado — livre de papas e sacerdotes — livre dos “chamados” e dos “excluídos” — livre de erros santificados e santas mentiras — livre do medo do sofrimento eterno — livre dos monstros alados da noite — livre de demônios, espíritos e deuses. Pela primeira vez eu estava livre. Não existiam lugares proibidos em todos as áreas do pensamento — nenhum ar, nenhum espaço onde a fantasia não pudesse abrir suas asas pintadas — nenhuma corrente em meus membros — nenhum chicote em minhas costas — nenhum fogo em minha carne — nenhuma careta ou ameaça do mestre — ninguém seguindo os passos de outros — nenhuma necessidade de inclinar, ou adular ou rastejar, ou proferir palavras mentirosas. Eu estava livre. Eu permaneci ereto e sem medo, alegre, enfrentei todos os mundos.

E então meu coração foi invadido pela gratidão, pelo agradecimento e continuou apaixonado por todos os heróis, os pensadores que deram suas vidas pela liberdade da mão e do cérebro — pela liberdade de trabalho e de pensamento — por aqueles que caíram nos aterradores campos de guerra, por aqueles que morreram em masmorras acorrentados — por aqueles que subiram orgulhosamente as escadas dos patíbulos — por aqueles cujos ossos foram esmagados, cuja carne foi rompida e rasgada — por aqueles consumidos pelo fogo — por todos os sábios, os bons, os corajosos de todas as terras, cujos pensamentos e feitos deram liberdades aos filhos do homem. E então eu jurei segurar a tocha que eles tinham carregado, e mantê-la no alto, esta luz ainda deve conquistar a escuridão.

Sejamos honestos conosco — honestos para com os fatos que conhecemos, e vamos, acima de tudo, preservar a veracidade de nossas almas.

Se existirem deuses, não podemos ajudá-los, mas podemos ajudar nossos semelhantes. Não podemos amar o inconcebível, mas podemos amar a esposa, os filhos e os amigos.

Podemos ser tão honestos quanto somos ignorantes. Se formos, ao nos ser perguntado o que existe além do horizonte do conhecido, devemos dizer que não sabemos. Podemos contar a verdade, e podemos desfrutar da bendita liberdade que os corajosos conseguiram. Podemos destruir os monstros da superstição, as serpentes cissiantes da ignorância e do medo. Podemos expulsar de nossas mentes as coisas assustadoras que rasgam e ferem com bico e presa. Podemos civilizar nossos semelhantes. Podemos encher nossas vidas com feitos generosos, com palavras amorosas, com arte e música, e todos os êxtases do amor. Podemos inundar nossos anos com a luz do sol — com o divino clima da gentileza, e podemos drenar a última gota da taça dourada da alegria.

Este arquivo, sua impressão ou cópias dele podem ser distribuídas, mas NÃO podem ser vendidas.

Bank of Wisdom, Box 926, Louisville, KY 40201

As Obras de ROBERT G. INGERSOLL

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La Recherche du temps perdu ou para os íntimos, a Horta da Luzia

Padrão

Os “veios” devem se lembrar do Pasquim. Era um tabloide publicado na década de 70 e 80 que se opunha ao regime militar e que reunia os intelectuais de esquerda, incluindo jornalistas e humoristas, o que dava um tom sui generis ao jornal. Foi o avô do CQC.

Foi lá que vi a expressão “horta da luzia”. Isso tem relação com uma expressão “você vai ganhar o que a Luzia ganhou atrás da horta”, mas no Pasquim significava uma espécie de exercício proustiano.

Pois é. Durante aquele período de minha existência que chamo de “verdadeira vida”, de 1968 a 1971, meu irmão, Nicola, alugou um apartamento na Rua da Consolação onde eu também acampava. Sim. Acampava porque era um acampamento, não um apartamento. Para se ter uma ideia, meu guarda-roupa era uma cama colocada em 45 graus contra a parede, com os cabides dependurados embaixo dela, no estrado, e cobertores, etc. sobre a parte inclinada. E eu dormia sobre um colchão no chão. Mas, era um lar…

Certa noite, eu e o Nicola, cada um em sua cama, no escuro, começamos a conversar sobre reminiscências da infância e da juventude e o assunto derivou para lembranças de quem morava onde.

Aí começamos pelo Seu Oracildes, à esquerda de nossa casa na Rua Marechal Deodoro, 99. Fisicamente à esquerda, porque o Seu Oracildes era de extrema direita. Em seguida vinha a Dona Coleta Mendes que morava em um apartamento anexo à casa do Donga, casado com a filha dela, Julieta e pais da Sueli.

Na direção norte ficava o seu Cefalini, mais tarde o Alírio e o Claudio Coutinho; depois vinha o açougue do seu Leôncio, pai do Oracildes, e a casa-cartório dele, que era tabelião; daí vinha o salão de cabeleleireira da Tia Nenê, irmã de minha mãe, anexo à casa-sapataria do Pedro Guerci, pais do Angelo e da Graça. Virando à esquerda, descendo a Dr. Pedro de Toledo ficava a casa do Armando Berozzi, com sua horta imaculada. Quando plantava pimentão, diziam que ele podava cada pé com alicate de cutícula. Um brinco. Mais abaixo a casa da Tia Nair, prima de minha mãe, mulher do Tio Otinho. O nome dele Otto Mathes. Meu ídolo. Montou o primeiro radio galena da cidade, sabia tudo sobre eletrônica e era completamente ateu. Abaixo da casa deles estava a casa do Fernando Castro, filho da minha professora do terceiro ano, D. Laura. O Fernando e o Tuca, filho da Tia Nair, um dia fugiram de casa. Lembro-me do fuzuê. Virando a esquina, na Rua Tupinambas, vinha a casa do Pedro Alemão, depois uma casa que não me recordo o nome e em seguida o Quinha Lemes, eletricista. Subindo a Francisco Maia havia a casa do Zé Policici, mais uma que não me lembro e fechava de novo na casa do Donga.

E assim íamos, intercalando lembranças sobre as pessoas, à medida que os nomes surgiam, e montávamos, quadra por quadra os residentes no centro velho da cidade, a partir de nossa casa.

Foi uma noite memorável.

Ballad of Finnegans Wake

Padrão

Traditional

NO YOUTUBE

Tim Finnegan lived in Walkin Street, a gentle Irishman mighty odd

He had a brogue both rich and sweet, an’ to rise in the world he carried a hod

You see he’d a sort of a tipplers way but the love for the liquor poor Tim was born

To help him on his way each day, he’d a drop of the craythur every morn

Whack fol the dah now dance to yer partner around the flure yer trotters shake

Wasn’t it the truth I told you? Lots of fun at Finnegan’s Wake

One morning Tim got rather full, his head felt heavy which made him shake

Fell from a ladder and he broke his skull, and they carried him home his corpse to wake

Rolled him up in a nice clean sheet, and laid him out upon the bed

A bottle of whiskey at his feet and a barrel of porter at his head

Whack fol the dah now dance to yer partner around the flure yer trotters shake

Wasn’t it the truth I told you? Lots of fun at Finnegan’s Wake

His friends assembled at the wake, and Mrs Finnegan called for lunch

First she brought in tay and cake, then pipes, tobacco and whiskey punch

Biddy O’Brien began to cry, “Such a nice clean corpse, did you ever see,

Tim avourneen, why did you die?”, “Will ye hould your gob?” said Paddy McGee

Whack fol the dah now dance to yer partner around the flure yer trotters shake

Wasn’t it the truth I told you? Lots of fun at Finnegan’s Wake

Then Maggie O’Connor took up the job, “Biddy” says she “you’re wrong, I’m sure”

Biddy gave her a belt in the gob and left her sprawling on the floor

Then the war did soon engage, t’was woman to woman and man to man

Shillelagh law was all the rage and a row and a ruction soon began

Whack fol the dah now dance to yer partner around the flure yer trotters shake

Wasn’t it the truth I told you? Lots of fun at Finnegan’s Wake

Mickey Maloney raised his head when a bucket of whiskey flew at him

It missed, and falling on the bed, the liquor scattered over Tim

Bedad he revives, see how he rises, Timothy rising from the bed

Saying “Whittle your whiskey around like blazes, t’underin’ Jaysus, do ye think I’m dead?”

Whack fol the dah now dance to yer partner around the flure yer trotters shake

Wasn’t it the truth I told you? Lots of fun at Finnegan’s Wake

Finnegans Wake: What It’ s All About

Padrão

By Anthony Burgess

(i)

DRIVE westwards out or Dublin, keeping south or Phoenix Park, and you will come to Chapelizod. The name means “Chapel or Iseult”, whom the Irish know as Isoilde and the Germans as Isolde-tragic heroine or Wagner’s opera. There is little that is romantic about Chapelizod nowadays; if you want a minimal excitement you will have to go to the pubs, of which the most interesting is purely fictional-the Bristol. Some will identify this for you with the Dead Man, so called because customers would roll out of it drunk to be run over by trams. It is important to us because its landlord is the hero of Finnegans Wake. He is middle-aged, of Scandinavian stock and Protestant upbringing, and he has a wife who seems to have some Russian blood in her. His name is, as far as we can tell, Mr. Porter, appropriate for a man who carries up crates of Guinness from the cellar, and he is the father of three children -young twin boys called Kevin and Jerry, and a pretty little daughter named Isobel.

Mr. Porter and his family are asleep for the greater part of the book. It has been a hard Saturday evening in the public bar, and sleep prolongs itself some way into the peace of Sunday morning. Mr. Porter dreams hard, and we are per­mitted to share his dream. In it various preoccupations of his are fantasticated, and the chief of these is a complex obsession to be expected in a man aware of ageing: his day is passing and the new age belongs to his sons, particularly his favourite son Kevin; his wife no longer attracts him, and he looks for a last sexual fling, or even a renewal of the sexual impulse, in a

younger woman. All this is innocent enough and should give him no bad dreams, but it happens that his desires are fixed on his own daughter. “Incest” is a terrible word, even though it means nothing more than a loyal desire to keep sex in the family, and Mr. Porter’s dream will only admit the word in disguise-as “insect”. Sleeping, he becomes a remarkable mixture of guilty man, beast, and crawling thing, and he even takes on a new and dreamily appropriate name-Humphrey Chimpden Earwicker. There we have the hump of sexual guilt he carries on his back (he is a different porter now), a hint of the ape, and more than a hint of the insect. “Earwicker” is dose to “earwig”, and this, through the French perce-oreille, can be Hibernicised into “Persse O’Reilly”. Another pre­occupation is a desire to be accepted by the Irish people, as a leader or political representative, but he remains aware of a foreignness that his dream-name too well indicates, and “Persse O’Reilly” is there only for mockery or execration.

In his dream HCE, as we shall now call him, tries to make the whole of history swallow up his guilt for him. His initials are made to stand for the generality of sinful man, and they are expanded into slogans like “Here Comes Everybody” and “Haveth Childers Everywhere”. After all, sexual guilt presupposes a certain creative, or procreative, vitality, and a fall only comes to those who are capable of an erection. The unquenchable vitality appears in “our Human Conger Eel” (despite the “down, wantons, down” of the eel-pie-maker in King Lear); the erector of great structures is seen in “Howth Castle and Environs”. From the point of view of the ultimate dreamer of the dream, though (the author himself), “HCE” has a structural task to perform. As a chemical formula (H2CE3) or as a genuine vocable (“hec” or “ech” or even “Hecech”) it holds the dream down to its hero, is sewn to it like a mono­gram-HCE: his dream. But HCE has, so deep is his sleep, sunk to a level of dreaming in which he has become a collective being rehearsing the collective guilt of man. Man falls, man rises so that he can fall again; the sequence of falling and rising goes on till doomsday. The record of this, expressed in the lives of great men, in the systems they make and unmake and remake, is what we call history.

What Joyce is doing, then, is to make his hero re-live the whole of history in a night’s sleep. This history is not what we learned at school – a chronological treadmill of kings and ministers and wars and revolutions. It is rather a special way of looking al history- less a parade of historical facts than a pattern which seeks to explain those facts. The pattern is loosely derived from the Italian philosopher Giovanni Battista Vico (1668-1744) who wrote an important book called La Scienza Nuova, in which he presented history not as a straight line but as a circular process of recurrences. If we say that Finnegans Wake is based on this book we shall be right, but only in the sense that we are right when we say that the same author’s Ulysses is based on Homer’s Odyssey. Both Ulysses and Finne­gans Wake are primarily works of fiction, and Vico and Homer are enlisted only to help with the telling of a story. Finnegans Wake is not an interpretation of Vico, and Vico is not much of a key to the difficulties of Finnegans Wake. What Joyce found in Vico was what every novelist needs when planning a long hook-a scaffolding, a backbone.

The backbone of Finnegans Wake is easily filleted out. History is a cycle divided into four arcs, and these four arcs will provide the book with its lour sections. Each are, or phase of history, is characterised by a particular form of government. In his earliest stage of development, man is much concerned with the worship of gods. In fabulous pre-history the gods speak in thunder or through oracles; the seed of the gods descends to earth to produce giants and heroes. In true, though primitive, history, the divine word is transmitted through patriarchs and prophets. This is the theocratic stage of human history. The aristocratic stage follows, in which great men, fathers of their communities, rule on their own initiative, not necessarily seeking divine sanction for their laws. The third phase is democratic, and in it we observe a certain debasement: our demagogues are feeble parodies of aristocracy and certainly less than gods. At this point, in Yeats’s words, “things fall apart; the centre cannot hold”: we suffer from anarchy and flounder in chaos. The time has come for what Vico calls the ricorso or return. The divine speaks in a clap of thunder, we come to our senses and resume worship of the gods. We are back to the theocratic phase, and the cycle starts all over again.

This is the technique for viewing history which Joyce imposes on the dreaming mind of his Chapelizod innkeeper, and at once the reader wants to protest at the implausibility. HCE’s dreaming mind may touch archetypal levels, but it is not likely to embrace Vico or the fabulous and historical data which must be used to exemplify the doctrine of the cycle. HCE is, in fact, a very ordinary innkeeper. But Joyce knows what he is doing. He obligingly falls into a trance himself and dreams a cunning dream which encloses that of his hero, a dream which confers the author’s own special knowledge on the unlearned snorer, granting him the gift of tongues (this is universal history, and hence polyglot) as well as such trifles as the ability to expound the Cabala and the Tunc page of the Book of Kells. He goes further. When HCE and his wife are awakened by the crying of one of the twins and when, after quietening the child, they attempt intercourse, Joyce does all the dreaming himself: the sleeping quality of the book must not be lost, the dream must remain unbroken. The introduction of waking attitudes and waking language would be an intolerable shock to the sys­tem and it would be an artistic sin to mix two orders of reality.

(ii)

EVEN if we abandon the straight-line view of history, starting at Julius Caesar, say, and ending with the late President Kennedy, we cannot have a history-book, even a dream one, without a large cast of characters. With the author’s help HCE must people his sleeping world with a vast number of personages, all of whom must exemplify the fall-rise-fall (or rise-fall-rise) principle which is made to animate Vico’s cycle. At the same time, since this a work of art, certain rules of economy must be observed-rules which true history, which is over-fecund of characters, chooses to ignore. What HCE does in his sleep is to turn his family into a kind of amateur dramatic society which, with help from customers, the cleaning-.woman, the pub handyman and a few others, is prepared to impersonate, however unhandily, a whole corpus of beings from myth and literature (including popular magazines, brainstorming melo­dramas and doubtful street-ballads) as well as from history ­books. In a dream it is proper for fictional characters and historical personages to occupy the one zone of reality, as well as to mix their times and subsist happily together on a kind of supra-temporal level: it is the most natural thing in the dreamer’s world to see Dr. Johnson and Falstaff, as well as the woman next door, waiting on Charing Cross railway station. The only significant date in HCE’s version of history is 1132 A.D., and the significance is entirely symbolic:  11 stands for return or reinstatement or recovery or resumption (having counted up to ten on our fingers we have to start all over again for 11); 32 feet per second is the rate of acceleration of all falling bodies, and the number itself will remind us of the fall of Adam, Humpty Dumpty, Napoleon, Parnell, as also of HCE himself, who is all their reincarnations.

A knowledge of this easy symbolism is essential for an under­standing of Finnegans Wake, as is also the realisation of the importance of number in general. You can build up the supporting dream-cast of the play by abstracting numbers from the calendar that hangs on some wall or other in the Bristol tavern. There are four weeks in a lunar month, and these will give you the four old men who have so much to say, though what they have to say is rarely of much value – Matthew Gregory, Mark Lyons, Luke Tarpey, and Johnny MacDougal. They are the four gospellers, as well as the four provinces of Ireland, and they take off to impersonal regions where they represent the four points of the compass, the four elements, the four classical ages, and so on. They are always together, followed by their donkey, and it is in order to think of them as a single unit, their names truncated to Ma, Ma, Lu, and Jo and crushed together to make Mamalujo. They end up, in the fading of the dream, as four bedposts. There are twelve months in the year, and these will give us the twelve Sullivans or Doyles, customers in HCE’s bar but also twelve apostles and twelve jurymen, always ready to give ponderous judgment in polysyllables ending in “-ation”. Their number, as with a jury, is more important than their names, which are always changing: when we meet a catalogue of apparently new characters, it is enough for us to take breath and count: we shall usually find the same old twelve. The month of February (in which the author was born) has sometimes twenty-eight days, sometimes twenty-nine. This provides Joyce with a bevy of girls from the academy of St. Bride’s (St. Bridget’s, or Ireland herself) with a separable special girl who usually turns out to be Isobel, HCE’s own daughter. Divide 28 by 4, and you are left with 7. The month­ maidens sometimes form themselves into the seven colours of the rainbow-an important emblem in Finnegans Wake, since it signifies God’s covenant after the Flood-hope of reinstate­ment after sin, 11 after 32.

One of the interesting things about Finnegans Wake is the way in which number refuses to melt and become fantasticated. This dream differs, then, from our own dreams, in which we take two slices of cake from a plate holding twelve and find only seven left. When HCE’s dream-wife gives gifts to each of her one hundred and eleven children, there are (I have counted) exactly one hundred and eleven, no more, no less. When the thunder of man’s fall sounds, or the thunder of God’s wrath, we find this represented by a word of exactly one hundred letters, no more, no less. 1 sometimes becomes 2, but that is a natural process of cellular fission: the father has begotten two sons, and the two sons together make up the parent body. This encourages Joyce to present the one daughter Isobel as two girls-a split personality, a temptress in love only with her mirror-image. But there is never any wanton deformation of a significant  number: simple arithmetic is the very breath of this dream.

The four, the twelve, and the twenty-eight or twenty-nine tend to stand outside history and comment on it. The hard work of participation in the recurrent story of man’s fall and resurrection rests on the shoulders of HCE, his wife and family, and the old cleaning-woman Kate. The mythical, literary, and historical characters who best exemplify the story are chosen out of a fairly narrow field-mainly from Irish history, and mainly from those Irish personages whose sin or fall best bodies forth HCE’s own guilt. In other words, we must expect to meet men who indulged in, or perhaps merely contemplated, acts of illicit love-often with girls far younger than themselves. There must be a tang of incestuous sin. After the general fall motif incarnated in the figures of Adam and Humpty Dumpty, we come to particular identifications. HCE plays the part of Charles Stewart Parnell, the Irish leader whose love for Kitty O’Shea led to his downfall. A symbol of guilt is taken from the letters which the Irish journalist Piggot forged as part of the general campaign to destroy Parnell. Piggot misspelled “hesitancy” as “hesitency” and committed the same solecism when giving evidence before the Parnell Commission. This led to his near-collapse in the witness-box and, just after, the private confession of his crime. Changes are rung on the misspelling throughout Finnegans Wake, and the word itself is especially appropriate to HCE, since his guilt expresses itself in a speech -hesitation or stutter. But there is an implication of betrayal and victimisation: a hearsay sin (in the dream HCE’s crime is no more than that) is swollen into an omnibus accusation which leads to HCE’s trial, incarcera­tion, and burial. Parnell, who only committed adultery, was turned by his enemies into the father of all sin.

Jonathan Swift had an obscure relationship with two girls ­Esther Johnson and Esther Vanhomrigh, better known as Stella and Vanessa. A father in God (Swift was, of course, the Dean of St. Patrick’s in Dublin) evinced a somewhat unfatherly interest in two of his spiritual daughters, and these two young women are conjoined in Finnegans Wake in the personality of HCE’s daughter Isobel. Two girls with one Christian name, two girls representing one temptation-it is no wonder that the dream-Isobel so easily splits herself into two. Here, anyway, is another guilt-pattern from history, and, like that “hesitency­-hesitancy”, it can be alluded to in a single word: Isobel’s endearment “ppt”, and all its allomorphs, comes straight from the “little language” or Swift’s Journal to Stella.

Another legend with strong Irish associations is teased, in this dream, out of Isobel’s own name. Isobel is Iseult-la-Belle, and Chapelizod is her secular shrine. Tristram of Lyonesse came to Ireland to convey Iseult, chosen bride, to his uncle, King Mark of Cornwall. But Tristram and Iseult fell in love, and a train of subterfuge, guilt, and disloyalty was started. Both HCE’s preoccupations find potent expression here-aged Mark, too old for love, superseded by a younger man; the agonising sweetness of a forbidden relationship. But we can go further. Sir Armory Tristram (Tristram of Armorica, or Brittany) founded the St. Lawrence family of Howth in Dublin and built Howth Castle: a dream-identification of the two Tristrams is inevitable. For that matter, we have two Iseults who, like the two Esthers, belong to the one legend-King Mark’s bride and the Iseult of the White Hands whom Tristram and Lyonesse eventually married. These are, naturally, both contained in Isobel, and a further justification for the splitting of her identity is provided. We have a verbal leitmotif for Parnell and for Swift; we have one for Tristram too, and Joyce 1.lkcs it from Wagner’s version of the legend-his music-drama Tristan und Isolde. The opening line of Isolde’s aria over the body of slain Tristan is “Mild und leise” (“soft and gentle”): this becomes distorted in Finnegans Wake to the grotesque nickname “Mildew Lisa”.

We can find other identifications with Irish legend and history, some of which creep away from the fall-theme and elevate HCE to the role of proud and guiltless leader-Brian Boru, Finn MacCool, King Laoghair (or Leary). But, though the foreground of the dream is Dublin, HCE is a universal father-figure, and we must not be surprised if he plays the parts of Noah, Julius Caesar, a Russian general, Harold the Saxon, a Norwegian captain, and so on. Scandinavian roles, though, are particularly appropriate, since HCE is of Nordic stock, and the most appropriate identification of all is literary, not historical. Joyce’s youthful literary god was Ibsen, and his play The Masterbuilder provides perhaps the most potent guilty father-figure of them all-Halvard Solness, who climbs a tower he has built at the request of a young woman he loves and, struck by the God he defies and figuratively rivals, falls from it to his death. An essential lesson of Finnegans Wake, if we can talk about “lessons” in connection with so undidactic a work, is that sin and creation go together, and that 11, which comple­ments 32, stands not only for rising but for raising. HCE has sinned, as have all men, but the sin has driven him out of the Garden of Eden only to plant in him the urge to create Eden- substitutes-cities and civilisations. The fall is, paradoxically, a happy one: “O felix culpa“, said St. Augustine. Joyce, planting HCE’s sin in Phoenix Park, puns on this with his “O Phoenix culprit.”

Broadly speaking, then, HCE plays man the father and creator, Bygmester or Masterbuilder. Ultimately he is identified with what he creates-the city itself. But the creator needs nature as his inspiration and consort, and cities are built on rivers. This brings us to the dream-function of HCE’s wife, Ann, whose dream-name is Anna Livia Plurabelle-the Anna Liffey (only feminine river in Europe) on which Dublin stands. The “Plurabelle” indicates her beauty and plurality (she contains all women). ALP conveys her natural majesty (she is bigger than any tower the Bygmester can raise), and the roughly triangular configuration of a mountain turns her into a piece of eternal geometry-she is our “geomater”, or earth­ mother. A triangle ALP suggests her triune form. She is wife, she is widow, but she is also daughter. Isobel is contained in her, as is Kate the cleaning woman, praiser of days gone by, , but HCE’s dream assigns to her chiefly the part of living mother and wife, protectress of her children and of the reputa­tion of her reviled and traduced husband. Though she flows, she is a symbol of the unchanging, while her lord, like all men, is capable of assuming many forms. Her mystery is the mystery of all rivers-the spring is different from the mouth that opens to the ocean, but both are the same water, and it is from the river’s death in the sea that the reality of new birth in the hills (the renewing rain-clouds blown inland from the coast) is derived for ever and ever.

As for the twin sons, they illustrate a sort of tragi-comic dialectic which owes a good deal to the Italian philosopher Giordano Bruno (1548-1600), the heretic from Nola who (in the words of Stephen Dedalus in A Portrait of the Artist as a Young Man) was “terribly burned”. Bruno the Nolan taught that opposite principles are eventually reconciled, in heaven if not on earth, and much of Finnegans Wake deals with the clash of two brothers unconsciously endeavouring to be made one, to flow back into the unifying father who begot their opposed natures. Joyce Hibernicises Bruno the Nolan into “Browne and Nolan”, the names of the Dublin printers who published his first piece of juvenilia, and he contrives other punning tropes to allude to the Brunonian theory-“Father San Browne . . . Padre Don Bruno”; “Bruno Nowlan”; “B. Rohan . . . N. Ohlan”; “brownesberrow in nolandsland”; “Bruin and Noselong”. The tragedy of HCE’s two sons lies in the fact that each on his own is only half the man his father was: neither is fit to supersede the father in the task of ruling the community. They appear usually as Shem the Penman and Shaun the Post: the first writes the Word, the second delivers it-generally in a distorted and debased form. Shem is the artist, and his most typical manifestation is as James Joyce himself (“Shem” is the Irish form of “James”)-the man who can make the dead speak but is totally incapable of coming to terms with the living, the exile who is cut off from action. Shaun (who owes a little to James Joyce’s brother Stanislaus) is a born demagogue and missionary, a kind of sham Christ, at home in the world of action but aware that he lacks the creative spark that is needed to fire the engine of rule. They hate each other, but their fights are really a vain attempt to become synthetised into a whole capable of bearing the burden of government. Anything either does tends to be cancelled out by the action of the other: when Shaun is accused of his father’s crime, Shem bears false witness against him, and the four Judges, remembering the Brunonian thesis, return a verdict of  ‘Nolans Brumans” – the accused goes scot-free. The struggles of Shem and Shaun find an eternal archetype in the war between Lucifer and Michael the Archangel (“Mick versus Nick”), but we are not inclined, despite the pressure of ortho­doxy, to take sides. Neither is lovable, both are pitiable. Their dissonance sounds only that our ears may long for the unison of the father. On the plane of symbolic botany, Shem may have a little life in him, since he is sometimes presented as a “stem”, but this cannot compare with the huge world-tree that grows out of HCE and ALP. As for Shaun, he is not even alive- a mere stone on the river-bank. In Shaun, the father’s authority is debased to a set of fossilised maxims, whereas Shem, drawn to the mother, drinks in a little of her flowing life. If we are going to prefer one to the other, we had better opt for Shem. After all, Shem wrote the book.

These, then, are the main characters of Finnegans Wake. HCE names the play, and the casting is automatic. If he, the heavy lead, is Adam, Shaun must be Abel and Shem Cain, and ALP must be Mother Eve. If HCE is King Leary, Shaun must be the missionary St. Patrick, Shem his archdruid opponent, and Isobel St. Bridget. Not all the characters need be employed at the same time: HCE is out of the troupe for a great part of the book, and then his guilt, as well as his authority, can be transferred wholly to the sons. Shaun can be Parnell, Shem Piggot, and Isobel Kitty O’Shea. On the whole, ALP has little time for acting: being a river is very nearly a full-time job. But now, having presented the actors, we must see how they fit into the vast single drama which encloses so many lesser ones: we must enter the Viconian amphitheatre.

( iii)

WE HAVE mentioned everyone except Finnegan, and yet it is his wake that gives a title to the book. Now we must speak not of Finnegans Wake, however, but of “Finnegan’s Wake”, a different title altogether, though the difference cannot be made apparent to the ear. “Finnegan’s Wake” is a New York Irish ballad which tells of the death of Tim Finnegan, a builder’s labourer who, fond of the bottle, falls drunk from his ladder at too great a height. His wife and family and friends sit mourning and drinking round his laid-out corpse, but soon a fight breaks out:

Micky Maloney raised his head,

When a gallon of whiskey flew at him;

It missed, and falling on the bed

The liquor scattered over Tim.

“Och, he revives! See how he raises!”

And Timothy, jumping up from bed,

Sez, “Whirl your liquor around like blazes­

Souls to the devil! D’ye think I’m dead?”

This ballad may be taken as demotic resurrection myth and one can see why, with its core of profundity wrapped round with the language of ordinary people, it appealed so much to Joyce. His book begins with this story, but Tim Finnegan is elevated to the rank of divine masterbuilder, a fabulous prehistoric hero hardly separable from Finn MacCool, giant leader of the Fenians under King Cormac, mighty subject of Ossianic epic poetry. Fallen, his head is the Head of Howth, his body lies under the city of Dublin, and his feet may be located near Chapelizod. In the dream-drama there is only one man to play him, and that of course is HCE, but we must not, at this stage, confuse a performance with an identification. Finnegan dies, his wake is held, and during the wake we are given a survey of his mythical world, but also of the new world of true history which is to come after him. In other words, Finnegans stands for the first phase of the Viconian cycle, the rule of gods-and-heroes, but with his thunderous fall and death, we must look forward to the coming of an age of purely human rule-we expect the arrival of an unheroic family man, some­body like Humphrey Chimpden Earwicker. When Finnegan, that the legend may be fulfilled, wakes up to the spilling of the whiskey, he is told to lie down again: arrangements have been made for the second phase of the Viconian cycle, and Finnegan would only disrupt that pattern. Let him sleep then until the wheel comes full circle and the thunder kettledrums in a return of theocratic rule.

So now HCE, playing himself, arrives from overseas, and the vague mixed tale of his fall is told. It seems that three soldiers saw him in Phoenix Park, apparently exhibiting himself to two innocent Irish girls (Isobel in her dual form, mixed up with the two colleens on the arms of the city of Dublin). A caddish pipe-smoking man named, apparently, Magrath passes on, greatly garbled and expanded, the story of HCE’s misdemeanour to his wife; she tells it, further ex­panded, to a priest; soon it is all over Dublin, and a bard called Hosty makes a scurrilous ballad about poor HCE, now christened Persse O’Reilly. He is accused of every sin in the calendar and is eventually brought to trial. Locked up in prison, reviled by a visiting American (so that he shall appear a disgrace to the New World as well as the Old), he is at length shoved into a coffin and buried deep under Lough Neagh.

All this is told in hints and rumours: HCE’s fall is as ancient as Adam’s, Among the rumours is one about a letter written by HCE’s wife ALP (she signed the letter “A Laughable Party”), in which his defence is set out at length: he had enemies, his crime was greatly exaggerated, he was a good husband and father. Meanwhile, as with Parnell, King Arthur, and Finn MacCool himself, it is whispered abroad that HCE is not really dead, that his indomitable spirit is uncontainable by any grave, however deep and watery. He thrusts up shoots of energy: there are quarrels; wars break out. The theme of the opposed brothers now makes its first full-length appearance. HCE’s guilt has become a matter of living moment once more, and it seems to attach to Shaun (called now, for some obscure reason, Festy King). But the trial is a far less massive affair than HCE’s, and the appearance of Shem as a witness­ discreditable and discredited-makes the whole issue fizzle out. We are asked to forget about the brothers for a brief space and to concentrate on ALP’s letter-in other words, to continue to concern ourselves with the big HCE legend.

The letter, scratched up from a midden-heap by a hen called Belinda, becomes the object of mock-scholarship. Certain people and places are mentioned in it, and a chapter is devoted to a quiz of twelve questions on these. Shaun now reveals himself as a clever quiz-kid quick to turn himself into a voluble schoolmaster. He gives a lengthy lecture on the theme of fraternal opposition, illustrating this with certain parables. Shaun himself appears in the first of them disguised as Pope Adrian IV -the only English pope, who gave his blessing to Henry II’s annexation of Ireland, since this would bring the old Irish Church under the wing of Rome. Shem stands for the old faith, embodied in St. Lawrence O’Toole, bishop of Dublin at the time of the English conquest. We have, in fact, two forms of the Christian faith which the domineering spirit of Shaun will not suffer to live peaceably side by side: one has to overcome the other. A more homely parable concerns Burrus and Caseous (butter and cheese), both products of the same substance, the paternal milk, who are rivals for the love of Margareen. The conclusion is that reconciliation between the brothers is not possible, that, to Shaun, Shem must stand accursed, unloved, unprotected.

We are then presented with a full-length portrait of Shem and at the same time introduced to the big food-theme which plays so important a part in the story. At that wake of Finnegan, the flesh to be devoured was that of the dead hero; with the coming of the brothers, it is the substance of the father HCE which must nourish the new rulers. Shem eats all the wrong food: he will not take the Irish salmon of Finn MacCool, for instance, but prefers some foreign muck out of a tin. Shem is low, un-Irish, writer of nasty books, but he flourishes the life­wand, makes the dead speak. He stands for living mercy, while Shaun is all dead justice. It is through Shem that we are able to approach ALP, the living mother: she composed the letter, but Shem penned it. And so we move to the final chapter of the first section, in which Anna Livia Plurabelle’s love-story is told, and in which she distributes the spoils of the battle which destroyed her lord’s reputation in the form of gifts to her III children, thus sweetening memory and allaying the residue of his guilt.

The second section of the book is concerned mainly with the children of HCE and ALP, who prepare for the great work ahead in games and study. Shaun is now called Chuff and Shem is called Glugg. Chuff is an angel and Glugg is a devil, and they fight bitterly, while the twenty-nine girls (who all love Chuff and hate Glugg) look on, dancing, singing, teasing Glugg with unanswerable riddles. After play comes lesson-time, and a whole chapter is arranged to accommodate the text of the boys’ lessons, with footnotes and marginal comments. The substance of the lessons is comprehensive, covering the secret doctrines of the Cabala, as well as the subjects of the mediaeval trivium and quadrivium. At the end of it all, the children fly off to the New World, whence they send a letter of greetings to the old decaying world which they have superseded.

But now, surprisingly, and in a chapter of great length, we come face to face with HCE again, this time in his capacity as innkeeper. His customers-the twelve and the four very prominent-represent the entire human community, whose purpose it is to discredit HCE in all sorts of oblique ways ­through tales in which he obscurely figures, through a television programme, through accounts of imperialistic wars. Even his alleged sin in Phoenix Park is sniggeringly hinted at, and HCE is forced to defend himself, pointing out that all men are sinners. But he is reviled and rent, and the sound of a mob coming to lynch him, led by Hosty singing a threatening rann, makes him clear the bar and lock the doors. But it is all revealed as depressed hallucination-a dream within a dream-and HCE, alone in his bar save for the four old men, who lurk in the shadows, drinks up the dregs from the abandoned pots and glasses and collapses, in a stupor, on the floor. He dreams of himself as King Mark, whose destined bride Tristram has taken, an old spent man who must hand over the future to his son.

The next section is all about Shaun. In the first chapter he presents himself to the people-sly, demagogic, totally un­trustworthy, obsessed with hatred for his brother and ready with another parable to figure forth the enmity-a charming tale called “The Ondt and the Gracehoper”, in which he himself is the industrious insect, while Shem, the irresponsible artist, fritters the hours away in the sunshine. But Shaun is more ready to admit to himself now that his own extrovert philosophy is insufficient, that the life of the “gracehoper” has its points. Shaun can rule over space, but he cannot, like the artist, “beat time”. Sooner or later, when Shaun’s rule col­lapses, we shall be forced to move back to the father, in whom both dimensions meet and make a rounded world. Shaun rolls off in the form of a barrel: he has filled himself with the food that is his father, but it has not nourished him; he is becoming a big bloated emptiness.

But, his name changed to Jaun, he is ready to appear as a kind of seedy Christ to the twenty-nine girls of St. Bride’s, reeling off questionable homilies to them, eventually-sensing that the time for his departure is not far off-summoning the Holy Ghost (Shem) to act as proxy bridegroom to his consort the Church, who is, course, Isobel. The daughters of Erin weep over him as over the dead god Osiris. His third chapter shows him as a pathetic wreck, vast, inflated, lying supine on a hill rightly re-christened Yawn. The four old men question him, but they are not interested in his own essence, only in that great primal essence from which he derives: they ask about HCE and his ancient sin, the work he did, the world he built. But Yawn is evasive, and the task of inquisition is handed over to four bright young transatlantic brains-trusters. Eventually, through a spiritualistic medium and crackling with static, the authentic voice of HCE comes through. He confesses his sin, but affirms his deathless love for his consort ALP, whom he has adorned with a city. And so the dream seems to come to an end, or rather the dream in the bedroom over the public bar dissolves and, through the dreaming eyes of the author, we see the decadent times which Shaun’s rule has brought about figured in the sterile rituals of marital sex. Mr. and Mrs. Porter copulate, their shadows on the blind flash the act to the world, but it brings no message of renewed fertility. These are the bad times: we, the readers, are living in them. It is time for the ricorso, the crack of divine thunder which will bring us to our knees to contemplate the return of a theocracy.

In the final section, a single chapter, Sunday morning comes and we turn our eyes to the East, looking for hope in an alien order of wisdom. The innkeeper goes to sleep again, and he dreams of his son Shaun as he may be, an agent of theocracy, a bringer of the word of God. The boy Kevin appears as St Kevin, and we are led back to the one genuine historical year in the whole chronicle-432 A.D., the year of the coming of St Patrick. He refutes the messed-up idealism of the Archdruid (who is also Bishop Berkeley) and speaks out the Christian message in a main voice. But the last word is neither God’s nor man’s: it is woman’s. We are given at last the full text of ALP’s letter, and she herself, all river now, dreams herself on to her death and consummation in her father the sea. Her day is done. She was once the young bride from the hills, a role passed on to her daughter; now, with the filth of man’s city on her back, she must seek renewal through annihilation; she will return at length to her source in rain-clouds blown in from the sea. The hope of re-birth, for the world as well as the river, is at once fulfilled. The last sentence of the book is incomplete: to finish it we must turn back to the beginning again. And then we are led on to pursue the great cycle once more, the never­ending history of man, sinner and creator.

(iv)

SO MUCH for the story of Finnegans Wake, but the story is insepar­able from the language in which Joyce tells it. It is the language, not the theme, which makes for difficulty, and the difficulty is intentional. The purpose of a dream is to obscure truth, not reveal it: reality comes in flashes of lightning out of dark clouds of fantasy, but it is the fantasy which it is the author’s duty to record. Joyce is presenting us with a dream, not with a piece of Freudian or Jungian dream-exegesis. Interpretation is up to us: he makes up the riddles, not the answers. But, as with so much of Joyce, a key to the language awaits us in popular literature: the verbal technique comes straight out of Lewis Carroll. HCE is identified with that great faller Humpty Dumpty, and it is Humpty Dumpty who explains the dream-language of “Jabberwocky”. What Humpty Dumpty calls “portmanteau-words” -like “slithy”, which means “sly” and “lithe” and “slimy” and “slippery” all at the same time ­are a very legitimate device for rendering the quality of dreams. In dreams, identities shift and combine, and words ought to mirror this. Waking life tells us that out of a buried body new life will spring, but it is our custom to work out the life-death cycle in terms of a logical proposition. The language of Finnegans Wake takes a short cut in the rendering of such notions, and the word “cropse” sums up in one syllable a whole resurrection-sermon. Waking language is made out of time and space, the gaps between the substances that occupy the one and the events that occupy the other; in dreams there are no gaps.

The technique of Finnegans Wake represents a sort of glori­fication of the pun, the ambiguity which makes us see a funda­mental, but normally disregarded, identification in a burst of laughter or a nod of awe. The very title is a complex pun, one missed by printers and editors who restore the apostrophe which Joyce deliberately left out. The primary meaning is one with an apostrophe-“the wake of Finnegan”-but, as we read the book, we find a secondary meaning assuming a greater and greater part in the semantic complex: “The Finnegans wake up, the cycle is renewed”. The very name contains the opposed notions of completion and renewal: ”fin” or ”fine” (French, Italian) and “again”. Once we understand the title, we are already beginning to understand the book.

Joyce’s puns are more complicated than those of Lewis Carroll, and they tend to a sort of progressive transformation which, though baffling, is shown to be quite logical in a dream­ing way. On the first page of the book we meet the expression “tauftauf”. The German word for “baptise” is “taufen” ; the tutor of St. Patrick was St. Germanicus, and it is dreamily appropriate that the patron saint of Ireland should use the German to point to the continuity, as well as the supra-national essence, of Christian evangelism. But later on “tauftauf” becomes a name-“Toffy Tough”- and finally (appropriate for baptism) it turns to “douche douche”; very little of the original is left, and only the surface-meaning and the reduplication show us that this is meant to be a pun at all. The use of a German word is bound, by the way, to disturb those readers who can accept puns but only know them in English. Joyce was a great linguist, at home in most of the tongues of Europe, and his word-play is multilingual, ranging from Erse to Sanskrit, though rarely further East. The language of Finnegans Wake has been aptly called “Eurish”-a basis of Irish-English with a superstructure of Aryan loan-words. This is not sheer wanton­ness: the dream is, so to speak, a Caucasian one, and the hero HCE is a type of all westward-migrating conquerors. As all rivers flow into Anna Livia Plurabelle, so all Aryan­s-peaking races enrich the blood of her husband. The language of his dream has to show this.

Joyce parodies where he does not pun (“Where the bus stops there shop I”), and where he does neither he still contrives to lend his language an extra dimension of meaning. Most of the devices he uses are demonstrated in the opening of the book, a sort of overture crammed with themes destined for strenuous development once the story starts. Thus, the “riverrun, past Eve and Adam’s” is a bit of pure topography on one level (the river is the Liffey, Adam and Eve’s is the church on its bank), but on another level it is the beginning of human history, the first hint of the fall of man and the polarity of the sexes. “Sir Tristram, violer d’amores” is both the Tristram of Arthurian legend and the Sir Almeric Tristram who founded the St Lawrence family and built Howth Castle; he plays love-songs on the viola d’amore, he violates both Iseult and his honour. “Wielderfight” means “fight again” (German “wieder” means “again”) and also “wield weapons in wild fight”. The “peniso­late war” is the war of the pen in isolation (Shem, artist in exile), the sexual war, with its thrust of the penis, and the Peninsular War which (Wellington and Napoleon) is a type of the struggle of brothers locked in mutual hate. The reference to the “doublin” on the river Oconee in Laurens County, Georgia, is an accurate piece of geographical information: there is a town called Dublin on that stream and in that county, and Joyce is concerned with hinting that the events of history repeat themselves, not only in time but in space as well: what happens in the Old World happens also in the New; (The gypsy word “gorgio” means “youngster”, implying that the American Dublin is a child of the Irish one, as Shaun, founder of new worlds, is a child of HCE), “Mishe mishe” is the Erse for “I am, Iam” -St. Bridget, as mother of Ireland, affirming her immortality. “Thuartpeatrick” is “Thou art Patrick”, echoing “Thou art Peter”, and also an identification of Ireland’s father-saint with the “peat rick” of the land itself. “Not yet, though venissoon after, had a kidscad buttended a bland old isaac” is crammed with layers of meaning. Isaac Butt was ousted from the leadership of the Irish National Party by Parnell (the wheel turns; one leader supersedes another). The cadet, or younger son, Jacob, disguised in kidskin as hairier Esau, dupes his blind father Isaac, makes him the butt of his deceit. “Venissoon” is “very soon” but also “venison” (ap­propriate in the Biblical context of goats and burnt offerings), and it modulates the harmony to Swift and Stella and Vanessa. “Not yet, though all’s fair in vanessy, were sosie sesthers wroth with twone nathandjoe.” The last word is an anagram of Swift’s Christian name, Jonathan, presenting him as Nathan (wise) and Joseph (untemptable)-two in one (“twone”). Susannah, Esther and Ruth are the “sosie sesthers wroth”­ all in the Bible, all young girls champed at by old men’s passion, but also (“in vanessy” is “Inverness”) three sisters who tempt and enchant, as the three weird sisters tempted and enchanted Macbeth. As two girls can be three as well as one (all are summed up in HCE’s daughter), so Ham, Shem, and Japhet can be Jhem and Shen, Noah’s sons brewing by “arc­light” (rainbow light, arc de ciel or Regenbogen) the liquor which will make Noah drunk and naked (protectionless) before them.

Need one go so far in digging out strata of meaning? Only if one wishes to; Finnegans Wake is a puzzle, just as a dream is a puzzle, but the puzzle element is less important than the thrust of the narrative and the shadowy majesty of the characters. We can get along very well with ‘a few key;-words and the general drift, and when our eyes grow bewildered with strange roots and incredible compunds, why, then we can switch on our ears. It is astonishing how much of the meaning is conveyed through music: the art of dim-sighted Joyce is, like that of Milton, mainly auditory. But if we are still disposed to curse the book as breaking those laws of intelligibility subscribed to by Nevil Shute and Ian Fleming, we ought to remind ourselves that a book about a dream would be false to itself if it made everything as clear as daylight. If it woke up and became rational it would no longer be Finnegans Wake. To complain that it is mixed-up, over-fluid, maddeningly complex, bursting at the seams with symbols, is to say that it resembles a dream-not a derogation but a compliment. Whether we want dreams or not is another matter, but we seem to, since we willingly spend a third of our lives in sleep.

We have been serious about Finnegans Wake, and we must remain serious about any work that took seventeen years to write, but let us guard against being like Hemingway’s bloody owl, solemn. This is, like Ulysses, a great comic vision, one of the few books of the world that can make us laugh aloud on nearly every page. Its humour is of that traditional kind, alive in Rabelais, still kicking in Sterne, which modulates easily from the farcical to the sublime and from the witty to the pathetic-a humour not much found in our brutal, senti­mental and facetious age, hence a humour much needed. It seduces us into the acceptance of a view of humanity as realistic as that of Dante, and quite as optimistic. Finnegans Wake appeared on the eve of Armageddon, when things looked their blackest for the entire human race. The 32 seemed embossed on every bullet, the 11 two sticks burnt in the ultimate fire. But man rose again. In Joyce annihilation becomes “abnihilisation”-the creation of new life ab nihilo, from the egg of nothing. As long as the race exists, Finnegans Wake will remain one of its big pertinent codices. The corpse is “cropse”. Or, to borrow Eliot’s borrowing, “Sin is behovely, but all shall be well, and all manner of thing shall be well”. This is not the philosophy of Shaun, the vapid liberal demagogue, but the faith of HCE, who- “Here Comes Everybody”- is suffering man himself.

Romance barato…

Padrão

Desde sábado, estou péssimo. Não sei se a física explica, mas se eu entrar em uma sala onde o clima está pesado, eu saio de quatro e fico pelo menos um dia fora de combate até me recuperar. Em suma, sou uma vitima constante de olho gordo. Acho até que em 2007 a carga negativa foi tão grande que provocou o meu problema de estômago.

Lembro-me como se fosse hoje. Foi marcada uma conferência sobre um assunto desinteressante – 9 de julho. E foi solicitado ao grupo que trouxessem convidados. By the way, eu sou contra esse tipo de evento, pois os convidados são coagidos a comparecer, muitas vezes por pressão emocional ou, como era o caso, funcionários que não podiam dizer não ao patrão, familiares visivelmente contrariados e amigos enfadados.

Em suma, um desastre. E a sala se enchia de uma carga negativa palpável.

E para onde foi toda aquela energia negativa? Para o marmitão aqui.

Não deu outra. Em seguida, durante o jantar que se seguiu, meu estômago se contraiu pela primeira vez, quase me sufocando e desde então nunca mais foi o mesmo.  Atualmente, graças à acupuntura, a energia começa a ser reequilibrada e o problema parece diminuir.

Pois acho que foi isso que me aconteceu agora. Neste sábado participei de uma reunião onde havia um alto nível de TPE – Tensão Pré Eleitoral com suas consequências normais – olhares fulminantes, diálogos ferinos, já que as regras da reunião não permitem agressões verbais ou discussões exacerbadas.

O resultado foi que entrei em parafuso, com a cabeça arrebentando, o potenciômetro de energia no zero, enxaqueca e o pior: uma sensação de ter sido substituído por outra pessoa.

E essa nova pessoa sabe tudo sobre mim, foi brifada com detalhes, o que faz com que as lembranças sejam exatas, embora não provoquem a recriação da emoção envolvida no momento lembrado.  Como se fosse um filme ou uma descrição literária.

Às vezes eu acho que sou uma personagem de um romance ruim  – uma novela chata, longa e maçante. Uma espécie de Gregor Samsa dos trópicos em um romance escrito por um paulo coelho da vida…

E esse idiota que escreve o romance, incompetente, faz alterações na personagem para ver se ela se desenvolve. Sem muito sucesso, pois se trata de uma personagem plana, mal estruturada, vitima de síndrome de personalidade esquizoide e mal resolvida. A personagem foi colocada inúmeras vezes  pelo autor diante de oportunidades de fruição de emoções e desenvolvimento de “plots” alternativos, mas o autor não soube encaminhar os eventos de forma eficiente, já que sua personagem não fora corretamente estruturada.

Confesso que não entendo a sua motivação para escrever esse péssimo romance. Minha esperança, talvez, seja que se trate de um longo flashback da biografia de um grande homem, ou seja, algo de grandioso está reservado para a personagem e que justifica a perda de tempo.