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Carta do Secularismo na Escola

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(Texto do cartaz afixado pelo governo francês em todas as escolas do país a partir de 10 de Setembro de 2013)

Tradução José Filardo

charte de la laicite

A República é secular.

A Nação confia à Escola a missão de compartilhar com os alunos os valores da República.

  1. A França é uma República indivisível, secular, democrática e social. Ela garante a igualdade de todos os cidadãos perante a lei, em todo o seu território. Ela deve respeitar todas as crenças.
  2. A República secular organiza a separação entre as religiões e Estado. O Estado é neutro no que diz respeito às convicções religiosas ou espirituais. Não existe religião oficial.
  3. O secularismo garante a liberdade de consciência a todos. Cada um é livre para acreditar ou não acreditar. Ela permite a livre expressão de suas convicções, respeitando as dos outros e dentro dos limites da ordem pública.
  4. O secularismo permite o exercício da cidadania, conciliando a liberdade de cada um com a igualdade e a fraternidade de todos no interesse geral.
  5. A República assegura o respeito a cada um desses princípios na escola.
  6. O secularismo da Escola oferece aos alunos as condições para a formação de suas personalidades, exercício de seu libre arbítrio e a aprendizagem da cidadania. Ele os protege de todo proselitismo e de toda pressão que os impediria de fazer valer suas próprias escolhas.
  7. O secularismo proporciona aos alunos o acesso a uma cultura comum e compartilhada.
  8. O secularismo permite o exercício da liberdade de expressão dos alunos dentro dos limites do bom funcionamento da Escola como o respeito pelos valores republicanos e pluralismo de convicções.
  9. O secularismo implica na rejeição de toda a violência e de todas as formas de discriminação; garante a igualdade entre meninos e meninas e baseia-se numa cultura de respeito e compreensão do outro.
  10. Cabe a todos os funcionários transmitir aos alunos o significado e o valor do secularismo, bem como de outros princípios fundamentais da República. Eles garantem sua aplicação em sala de aula. É sua responsabilidade levar essa Carta ao conhecimento dos pais dos alunos.
  11. Os funcionários têm um dever de estrita neutralidade: eles não devem expressar suas convicções políticas ou religiosas, no exercício de suas funções.
  12. As aulas são seculares. Com o objetivo de garantir aos alunos a abertura mais objetiva possível para a diversidade de visões de mundo, bem como a extensão e precisão do conhecimento; nenhum assunto é a priori excluído da investigação científica e pedagógica. Nenhum estudante pode invocar uma convicção religiosa ou política para contestar o direito de um professor de tratar de um assunto do programa.
  13. Ninguém pode prevalecer de sua religião para se recusar a cumprir as regras aplicáveis à Escola da República.
  14. Nas escolas públicas, as regras de vida em diferentes áreas da Escola especificadas no regimento interno respeitam o secularismo. O uso de sinais ou vestimentas pelas quais os alunos manifestam abertamente uma afiliação religiosa é proibida.
  15. Por seus pensamentos e atividades os alunos contribuem para a subsistência do secularismo no seio de sua instituição.
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E o verbo se fez carne…

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Tudo começou em uma manhã de dezembro de 1948.  Em pleno baby-boom. As cegonhas estavam trabalhando dobrado para dar conta de todos os pedidos e na noite de 18 de dezembro, o cegonho encarregado da entrega da encomenda de um filho na casa de um holandês calvinista em Poços de Caldas estava enterrado em dívidas de jogo e precisava fazer horas extras. Por isso ele estava exausto quando pegou a ordem. Não deu outra.  Quando sobrevoava Caconde, na manhã do dia 19, sua asa esquerda começou a falhar e ele resolveu entregar a encomenda ali mesmo.  Notificou o despacho e solicitou que outra cegonha entregasse outro pacote ao holandês, enquanto ele entregaria o pacote dele ali mesmo, já que não conseguiria voar até Poços.

Por isso, ao invés de uma casa calvinista, fui descarregado em uma casa católica.  Uma parte de origem portuguesa (cafeicultores falidos) e a outra metade imigrantes italianos. Uma boa família, mas com um defeito terrível – o catolicismo.

Pois é, e eram católicos. Minha vó Chica até era zeladora da igreja, fazia parte da congregação do sagrado coração de chessuis, recebia a capelinha uma vez por mês, ornamentava a fachada em dia de “picissão”; minha mãe e minhas tias foram filhas de maria e depois também eram membros da congregação do sagrado coração de chessuis; também recebiam a capelinha de vez em quando; na minha infância, era comum na casa da minha vó as brincadeiras de procissão organizadas pelo Picido – já prenunciava sua vocação.  Nas semanas santas éramos vestidos de apóstolos para o tradicional lava-pés. Como a minha Vó Chica era influente, eu sempre conseguia ser apóstolo. Hoje sou apóstata.

Do outro lado, dos italianos – católicos por definição – meu pai e meu tio eram congregados marianos, minha tia Rosa era filha de maria, catequista e cantava no coro da igreja. Minha vó Elizabeta também pertencia à congregação do sagrado coração, assim como todas as suas filhas.

Não deu outra. Fui batizado e crismado na superstição católica, onde permaneci até mais ou menos quinze anos, quando rebelei-me, escrevi uma carta ao João XXIII, pedi demissão e abandonei a santa madre.  Mas esta é uma outra história.

Como uma menina de 5 anos de idade deu a Sanjay Gupta da CNN uma nova perspectiva sobre maconha medicinal

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Tradução José Filardo

Diante de uma criança tratando epilepsia grave com maconha medicinal, Gupta foi forçado a ver o erro de seus caminhos.

 

Dr. Sanjay Gupta da CNN

Dr. Sanjay Gupta da CNN

Crédito da foto: Dfree / Shutterstock.com

9 Agosto 2013 |

 

O principal correspondente médico da CNN, Dr. Sanjay Gupta está provocando ondas por sua recente inversão de opinião sobre a maconha medicinal. Parte disso tem a ver com o amplo conjunto de evidências médicas, mas a história comovente de uma menina de 5 anos de idade também pode ter desempenhado um papel significativo.

E se você fosse o pai de uma criança pequena que sofre de uma forma grave de epilepsia que a enviou para debilitantes choques centenas de vezes por semana, interrompendo quase todos os momentos do dia, muitas vezes deixando-a em estado catatônico e minando seu desenvolvimento? Você já tentou todos os tratamentos disponíveis, visitou inúmeros especialistas e nada parece funcionar.

Você levou seu filho para casa de outra visita ao pronto-socorro do hospital, desta vez levando consigo o peso incomensurável de uma ordem de “não ressuscitar” do médico dela. Seus provedores de tratamento esgotaram todos os recursos que eles conhecem e o que lhe deixou com muito pouca esperança.

Finalmente, no auge de seu desespero, você descobre um último curso de ação, mas um que não é sem controvérsia. Você ficou sabendo sobre uma planta que contém substâncias químicas comprovadamente benéficas para crianças como sua filha. Entretanto, a primeira complicação é que a planta também tem propriedades psicoativas e, por mais que você queira ajudar sua filha, você não quer mantê-la em um constante estado de intoxicação.

Você descobre que há cepas da planta com menos produto químico tóxico e mais daquele que você acredita ter os benefícios médicos de que precisa. No entanto, existe uma segunda complicação muito difícil: a planta é ilegal e este fato cria consequências significativas.

Poucos pesquisadores clínicos tiveram a capacidade de fazer testes completos da planta e revisar objetivamente seus efeitos colaterais, devido à política e ao fato de que o governo federal a proibiu. Conseguir um suprimento confiável e seguro será um desafio extraordinário. E mesmo que as leis locais permitam acesso limitado à planta e seu filho melhore com ele, você pode nunca ser capaz de viajar com ela para fora do Estado, sem o risco de prisão e possivelmente ter sua menina tirada pelas autoridades.

Um jovem casal do Colorado, Paige e Matt Figi, enfrentaram esse duríssimo dilema e sua história é o tema do especial do documentário “Erva” do Dr. Gupta que irá ao ar neste domingo à noite na CNN. Sua filha de cinco anos de idade, Charlotte, luta com uma forma grave de epilepsia chamada Síndrome de Dravet, e apesar de terem sofrido medidas extremas para tratá-la com a maconha medicinal, os resultados têm sido excelentes. Charlotte deixou de ter centenas de ataques por semana para apenas um pequeno episódio a cada mês, com o uso regular e cuidadosamente monitorado da planta.

A experiência de tirar o fôlego da família Figi ajudou a transformar os pontos de vista do Dr. Gupta, neurocirurgião respeitado e uma vez candidato a Cirurgião Geral dos EUA que já havia “comprado” a noção de que o a DEA (Drug Enforcement Administration) e o governo federal dos EUA impuseram a proibição à maconha com base em provas científicas sólidas. Depois de se debruçar sobre mais dados, reunir-se com Charlotte Figi, e viajar ao redor do mundo para entrevistar especialistas para este programa especial, o Dr. Gupta revisou dramaticamente o seu pensamento e até mesmo emitiu um pedido público de desculpas para seu descarte anterior dos benefícios medicinais da maconha.

Entre os especialistas clínicos entrevistados para o especial está professor de neurociência da Universidade Columbia e membro do conselho da Drug Policy Alliance, Dr. Carl Hart. O Dr. Hart tem estado em uma missão há mais de duas décadas de estudar os atributos de drogas ilegais a partir de uma base científica racional e intencionalmente evitando a nuvem de propaganda da guerra às drogas. Seu novo livro Alto Preço narra sua jornada pessoal e acadêmica e as armadilhas de um ambiente de pesquisa contaminado por preconceitos, restrições fortíssimas e agendas políticas que limitam as informações que poderiam revelar-se vital para médicos, pacientes e familiares.

Atualmente, 20 estados e o Distrito de Columbia aprovaram leis que legalizam o uso e a produção de maconha medicinal para pacientes qualificados. No entanto, o uso medicinal da maconha continua ilegal sob a lei federal, e os pacientes nos demais estados estão sem qualquer acesso legal. Mesmo nos estados onde existem leis de maconha medicinal, pacientes e fornecedores estão vulneráveis ​à prisão e ​a interferência de aplicação da lei federal.

Em Nova Jersey, há um projeto de lei parado na Mesa do governador Christie que, se ele estiver disposto a assinar, permitiria que a maconha medicinal fosse recomendada para crianças como Charlotte. A legislação foi criada em resposta ao caso de Vivian Wilson, uma garota de dois anos de idade que também sofre de Síndrome de Dravet em Nova Jersey, cuja família vem lutando para obter o seu acesso à maconha medicinal. Vivian sofre uma média de 15 ataques por dia e teve mais de 20 internações devido à sua condição.

Há muitas vítimas da guerra às drogas, e não menos que isso está o acesso à pesquisa científica inteligente sobre as propriedades benéficas da maconha. Felizmente, o exame atencioso e comovente de Sanjay Gupta desta edição ajudará ainda mais a impulsionar a maré crescente de razão, compaixão e pensamento inovador sobre esta questão.

Este artigo apareceu pela primeira vez no Blog Drug Policy Alliance.

Sharda Sekaran é Diretor Gerente de Comunicações da Drug Policy Alliance, a principal organização do país promovendo políticas de drogas que são fundamentadas na ciência, compaixão, saúde e direitos humanos.

Publicado originalmente aqui

O Quê Dizer aos Filhos Sobre Religião?

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Austin Cline – Tradução José Filardo

Quando as crianças são criadas em um ambiente religioso, o que lhes é ensinado sobre religião é relativamente óbvio e organizado – mas e as crianças educadas em um ambiente não-religioso? Se você não está especificamente ensinando seus filhos a acreditar em quaisquer deuses ou a seguir qualquer sistema religioso, então pode ser tentador ignorar completamente este assunto.

Mas, no entanto, isto seria, provavelmente, um erro. Você pode não seguir qualquer religião e você pode ficar mais feliz se os seus filhos nunca seguirem qualquer religião, mas isso não muda o fato de que a religião é um aspecto importante da cultura, da arte, da política e da vida de muitas pessoas que seus filhos vão encontrar ao longo dos anos. Se seus filhos simplesmente são ignorantes sobre religião, eles vão perder muita coisa.

Outro, e talvez mais grave problema de se ignorar a religião reside na forma como eles reagirão à religião, uma vez que tenham idade suficiente para tomar suas próprias decisões. Se eles não estiverem familiarizados com sistemas de crença religiosa, então eles serão presa fácil de evangelistas de praticamente qualquer fé. Faltarão aos seus filhos simplesmente as ferramentas intelectuais necessárias para compreender e avaliar o que eles estão ouvindo, aumentando a probabilidade de que eles adotem uma religião muito exótica e/ou extrema.

Então, se é uma boa idéia ensinar sobre religião, como isso deve ser feito? A melhor maneira de fazer isso é simplesmente ser o mais justo e objetivo possível. Você deve explicar, usando materiais adequados à idade, apenas aquilo em que as pessoas acreditam. Você também deve se esforçar para ensinar sobre tantas religiões quanto possível, e não se limitar apenas à religião dominante em sua cultura. Todas essas crenças devem ser explicadas lado-a-lado, incluindo até mesmo as crenças de antigas religiões, tratadas geralmente hoje como mitologia. Desde que você não privilegie nenhuma religião em detrimento de outra, então seus filhos também não deverão fazê-lo.

Quando seus filhos têm idade suficiente, pode também ser uma boa idéia levá-los aos cultos de diferentes grupos religiosos, para que possam ver por si mesmos o que as pessoas fazem. Não há substituto para a experiência em primeira-mão, e algum dia eles podem querer saber como é o interior de uma igreja, de uma sinagoga, de uma mesquita. É melhor que eles descubram em sua companhia, de modo que você possa discutir o assunto posteriormente.

Se você estiver com medo de que ensinando sobre religião você também os estará ensinando a ter fé em alguma religião, você não deve se preocupar muito. Seus filhos podem achar que esta ou aquela religião para ser muito interessante, mas o fato de que você está apresentando muitas religiões como iguais, sem que nenhuma delas mereça mais crédito do que qualquer outra, torna muito improvável que eles adotem acriticamente qualquer uma daquelas religiões, da mesma forma que uma criança criada especificamente para seguir uma tradição religiosa particular adota.

Quanto mais eles souberem sobre as reivindicações de fé de diferentes religiões e quanto mais simpáticos forem com a intensidade com que cada grupo, sincera e honestamente, acredita naquelas idéias incompatíveis entre si, menos provável será que eles comecem a aceitar qualquer uma daquelas reivindicações em detrimento das outras. Esta educação e estas experiências funcionam, então, mais como uma vacina contra o fundamentalismo e o dogmatismo.

Ênfase no pensamento crítico também é importante, obviamente. Se você educar seus filhos para serem céticos como regra geral, não deverá ser necessário fazer grande esforço para que eles tratem as afirmações religiosas com ceticismo – eles devem acabar fazendo isso por conta própria, de qualquer forma. O ceticismo e pensamento crítico são atitudes que devem ser cultivados em uma ampla gama de temas, e não algo a centrar-se na religião e esquecer as outras coisas.

A ênfase no respeito também é importante. Se, por meio de exemplo ou de propósito, você ensinar seus filhos a ridicularizar os crentes, você só os estará ensinando a serem preconceituosos e intolerantes. Eles não têm que aceitar ou concordar com, ou mesmo gostar das crenças religiosas dos outros, mas eles não devem fazer questão de tratar os crentes como se eles não merecem o mesmo respeito que os ateus e os não-religiosos. Isto não só os protegerá de conflitos desnecessários, mas também fará deles melhores pessoas de maneira geral.

http://atheism.about.com/od/atheistschildren/a/kids_teach.htm?nl=1