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EVACUANDO

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Todas as pessoas que conheço estão procurando um sentido para a vida. Entre elas, acho que ninguém conseguiu. Exceto eu, naturalmente.  E vou compartilhar com vocês a minha descoberta. 

Tarammm!

Pois bem, o sentido da vida é procurar o sentido da vida. Simples assim.

Há pessoas que não se conformam com a falta de sentido da vida e definem um sentido pessoal para a própria vida.

Há pessoas que desistem de procurar o sentido da vida e simplesmente vivem a vida, ou melhor são levadas pelo rio da vida como uma rolha flutuando na corrente.  Para alguns a corrente é turbulenta, para outros é mais suave. Eu estou entre esses últimos.

Em meus quase 65 anos de vida, tomei apenas quatro decisões marcantes. O restante dos meus dias foram uma sequência de eventos sobre os quais eu não tive qualquer controle.

A primeira delas, aos quinze anos, quando resolvi abandonar a igreja católica, com a qual tinha estado em conflito desde sempre, ou melhor, desde que o padre me expulsou aos gritos do confessionários em minha primeira comunhão (já contei essa história por aqui). Identifiquei o padre estúpido com a sua religião estúpida e nunca realmente me liguei naquela baboseira toda que a tia Rosa passava no catecismo ou os padres em seus sermões idiotas. Assim que a decisão estava madura, escrevi uma carta ao João XXIII solicitando minha excomunhão.

A segunda decisão eu tomei aos 19 anos, quando decidi jogar para cima o emprego no banco.  Tinha entrado na faculdade, dava aulas particulares, dava aulas em cursinho e tocava a vida. Foram os únicos 18 meses de vida de verdade que tive em todos os 65 anos em que venho respirando, comendo, cagando e dormindo.

A terceira decisão foi um enorme engano que cometi e que teria mudado completamente o rumo de minha vida.  Em 1970, fui informado que a IBM estava recrutando funcionários com inglês e fui até lá. Nessa época, a IBM não passava de uma salinha na Rua Araujo e eu conversei com o gerente e fui aceito, ficando de dar uma resposta no dia seguinte.  E o idiota aqui não aceitou. Só porque o horário de trabalho era da meia noite às sete.  Cretino!

A quarta decisão (e última) foi quando resolvi entrar na Maçonaria. Vocês dirão: “Ah, mas ninguém decide entrar na Maçonaria. Você tem que ser convidado.”

Pois é. É assim mesmo. Mas eu sou bisneto de maçom e duas gerações de filhas mulheres impediram a sequência da tradição. Mas, eu tinha o Tio Afonso, irmão do meu avô, que era maçom, seus filhos, netos, sobrinhos, genros eram maçons.  Pedi a ajuda deles para me apadrinhar e finalmente fui recomendado a um irmão em Sampa que me apadrinhou. Essa decisão é neutra, pois não fez diferença na minha vida, já que a maçonaria brasileira está completamente inerte.

Posso dizer, entretanto, que sou feliz.  Nasci em uma excelente família cujo único defeito era o catolicismo, mas isso eu resolvi com a minha primeira decisão.

Meu pai era uma pessoa muito simples, para quem os filhos deveriam seguir a profissão do pai e acomodar-se passivamente diante da autoridade e da vida. Era uma pessoa absolutamente honesta e cumpridora de seus deveres e conseguiu transmitir esses valores aos filhos.  Mas, ele queria mesmo que ficássemos para sempre em Caconde, tocando a barbearia.

Minha mãe, por outro lado, era uma pessoa visionária (não consigo entender de onde ela tirou a sua determinação, lutando contra a corrente). Acho que foi graças a ela que escapei de ir para em um seminário como o meu primo Picido. Seriamos dois bispos na família. Ou pelo menos um, já que o Picido não aceitou o empreguinho quando o papa ofereceu e preferiu continuar chefiando a seita que ele criou.

Bem, já evacuei bastante por hora.  Voltarei ao assunto.

E o verbo se fez carne…

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Tudo começou em uma manhã de dezembro de 1948.  Em pleno baby-boom. As cegonhas estavam trabalhando dobrado para dar conta de todos os pedidos e na noite de 18 de dezembro, o cegonho encarregado da entrega da encomenda de um filho na casa de um holandês calvinista em Poços de Caldas estava enterrado em dívidas de jogo e precisava fazer horas extras. Por isso ele estava exausto quando pegou a ordem. Não deu outra.  Quando sobrevoava Caconde, na manhã do dia 19, sua asa esquerda começou a falhar e ele resolveu entregar a encomenda ali mesmo.  Notificou o despacho e solicitou que outra cegonha entregasse outro pacote ao holandês, enquanto ele entregaria o pacote dele ali mesmo, já que não conseguiria voar até Poços.

Por isso, ao invés de uma casa calvinista, fui descarregado em uma casa católica.  Uma parte de origem portuguesa (cafeicultores falidos) e a outra metade imigrantes italianos. Uma boa família, mas com um defeito terrível – o catolicismo.

Pois é, e eram católicos. Minha vó Chica até era zeladora da igreja, fazia parte da congregação do sagrado coração de chessuis, recebia a capelinha uma vez por mês, ornamentava a fachada em dia de “picissão”; minha mãe e minhas tias foram filhas de maria e depois também eram membros da congregação do sagrado coração de chessuis; também recebiam a capelinha de vez em quando; na minha infância, era comum na casa da minha vó as brincadeiras de procissão organizadas pelo Picido – já prenunciava sua vocação.  Nas semanas santas éramos vestidos de apóstolos para o tradicional lava-pés. Como a minha Vó Chica era influente, eu sempre conseguia ser apóstolo. Hoje sou apóstata.

Do outro lado, dos italianos – católicos por definição – meu pai e meu tio eram congregados marianos, minha tia Rosa era filha de maria, catequista e cantava no coro da igreja. Minha vó Elizabeta também pertencia à congregação do sagrado coração, assim como todas as suas filhas.

Não deu outra. Fui batizado e crismado na superstição católica, onde permaneci até mais ou menos quinze anos, quando rebelei-me, escrevi uma carta ao João XXIII, pedi demissão e abandonei a santa madre.  Mas esta é uma outra história.

Corrigindo uma injustiça sem tamanho

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Nunca é tarde para reconhecer erros e corrigir injustiças. E eu tenho uma grande, talvez a única injustiça importante da minha vida, que foi cometida contra duas pessoas: o Padre Pedro Jarussi e o Prof. Roque Yellow.

Pois é. Eu já contei sobre minha traumatizante experiência de primeira comunhão. Para quem não sabe, o que se passou foi o seguinte.

Por mais estranho que possa parecer a quem está fora da igreja católica, havia – back in 1955 – a necessidade de se passar pelo confessionário, caso o católico pretendesse receber a hóstia, ou seja a comunhão.

E mesmo garotos e garotas de sete anos, ao tomar a comunhão pela primeira vez, passavam por uma doutrinação chamada catecismo, ao fim da qual se confessavam e finalmente “faziam” a primeira comunhão.

Não foi diferente comigo. Passei pelo treinamento com a Tia Rosa e a Clélia e no dia aprazado fomos à igreja para a confissão.  O padre era Pedro Jarussi.

A confissão era realizada no confessionário, uma “casinha” onde o padre ficava sentado e o fiel se colocava ao lado, em uma janelinha através da qual se comunicava com o padre dentro da casinha.

E lá fui eu. Ajoelhei (ou talvez tenha ficado de pé, já que era baixinho e mal devia alcançar a janelinha) e embatuquei.  Não sabia o que devia fazer. Acho que não tinha entendido a brincadeira.

O Padre Pedro, possesso (devia estar em um mau dia) saiu da casinha, do alto de seu um metro e sessenta (o dobro da minha altura),  aos gritos – que reboavam pela nave da igreja silenciosa, como se fosse a voz de deus todo poderoso, criador dos céus e da terra e de todas as coisa visíveis e invisíveis – expulsando-me  e ordenando que fosse fazer o exame de consciência!…

E plantou em mim a semente do ódio a tudo o que ele representava.

A segunda experiência que gerou outra injustiça aconteceu cerca de sete anos depois.

Apesar a experiência inicial que não foi das melhores, eu continuara na igreja, “fiz” a primeira comunhão, crisma, fui apóstolo da semana santa (graças à  minha vó chica, zeladora da igreja, e de minha Tia Rosa que cantava no coro e que tinham muita influência nessas horas), participava daquelas procissões de congregados marianos realizadas antes do nascer do sol, cantando “Queremos deus, homens ingratos…” e das festividades da semana santa com suas missas cantadas, enfim, tudo parecia normal.

Eis que, em uma missa das dez do domingo, estávamos eu e o Silvinho, colega de classe no ginásio ajoelhados assistindo à missa e no momento da consagração quando o coroinha levantava a casula do padre (acho que não fazem mais isso), ao som da campainha e os fiéis contritos contemplam o senhor, eu ou o Silvio, não me lembro mais,  disse “levantaram a saia do padre…”

Não deu outra, tivemos um ataque de riso escandaloso  que fez com que o Roque Yellow – nosso professor (ele achava que ensinava alguma coisa) de química no ginásio e o maior carola da congregação saísse de seu lugar (pendurado no saco do padre) para vir e nos expulsar do templo às chicotadas, diante da cidade inteira…

Aquilo foi a gota d’água para mim.

Eu começara a aprender inglês e graças à D. Donátila – a melhor professora que tive na vida – eu já estava bem adiantado e compus uma carta ao Papa Joãozinho Quase solicitando meu desligamento da igreja católica e mandei ao Vaticano.

A partir daí tornei-me Átila o flagelo de deus – na paróquia. Trocava de padre e lá estava eu contestando tudo o que ele fazia ou dizia, escandalizando a Silvia Santos nas aulas de religião  –  é isso mesmo, havia aulas de religião obrigatórias no ginásio e no colégio, porque o Roque Yellow era o diretor.

Assim, durante todos estes anos, eu culpei o Padre Pedro e o Roque Yellow por  me terem me humilhado e expulsado da igreja.

Quero agora, formalmente, me desculpar em relação a esses bravos e esclarecidos adultos que, cada um ao seu modo, salvaram minha alma.  Hoje eu analiso o risco que corri – se meus pais tivessem conseguido os recursos necessários, é claro – de ser mandado para um seminário e hoje ser um pedófilo.

Consegui, graças ao Padre Pedro e o Roque Yellow, escapar à doutrinação deletéria do catolicismo e conquistei minha independência intelectual. Por essa razão me penitencio:

Mea culpa, mea culpa, mea culpa…

Minhas homenagens a estas duas figuras importantíssimas de minha infância e juventude.

Amém.